Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Meio ambiente

Crise climática: somos todos responsáveis?

A crise climática precisa ser enfrentada a partir da concepção de que os mais vulneráveis estão mais suscetíveis às emergências do que os mais favorecidos social e economicamente

Públicado em 

18 jul 2023 às 00:10
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

A crise climática é fenômeno incontestável e que se impõe como uma realidade trágica, com a qual temos que conviver e para a qual precisaremos encontrar soluções que sejam tanto imediatas, com vistas a enfrentar os riscos que se apresentam como perigos iminentes, quanto de médio e de longo prazo, de forma a enfrentar as consequências nefastas da destruição ambiental que fomos produzindo de forma sistemática e cada vez mais violenta, desde a Revolução Industrial, com um agravamento nas últimas décadas.
Acostumamo-nos a achar que o planeta era uma fonte inesgotável de bens e de riquezas a atender aos nossos desejos mais elementares e nosso insaciável apetite por consumir aquilo que não precisamos e que não se caracteriza como necessidade humana fundamental.
No bojo da lógica do mercado, nós nos transformamos em uma sociedade do consumo, sem compreender o que de fato estávamos fazendo, encantados com o desenvolvimento e com tudo o que ele nos trazia, mas sem avaliar como isso poderia interferir em nosso futuro.
Entre desejos e necessidades, optamos, ou fomos compelidos por poderosas estratégicas de marketing, a nutrir cobiças cada vez mais vorazes e sofisticadas em uma insaciabilidade compartilhada com nossos iguais, social e economicamente falando, ignorando todos os demais que não são percebidos como sujeitos de direitos. Disputamos marcas famosas de roupas, bolsas, tênis, carros, óculos, eletrodomésticos, celulares, entre tantos outros itens que compõem o kit sucesso, altamente descartável, com o qual tentamos nos validar socialmente.
Ao tempo em que nos deliciamos com as novidades do mercado, altamente produtivo e eficaz em construir inovações, objetos de desejos sem os quais achamos que não podemos viver, fechamos os olhos para as implicações desse modelo de economia que se sustenta na desigualdade e em valores que pouco podem nos acrescentar como membros de uma mesma comunidade de humanos e de seres vivos que compartilham o mesmo planeta Terra, limitado em sua capacidade de se autorregenerar.
Para além das consequências individuais como ansiedade, insônia, depressão, endividamento, trabalho excessivo, ruptura dos laços afetivos e outras questões decorrentes da luta por sucesso profissional e financeiro, a cultura do consumo escancara nossa falta de compreensão dos fenômenos políticos, sociais e ambientais envolvidos nessa modelagem civilizatória que ignora o outro, diferente, distante e distanciado dos olhos, como parceiro dessa caminhada.
Aquilo que não vemos e que não está enfronhado no nosso cotidiano de forma radical é, de certa forma, ignorado de modo a não produzir incômodos que consideramos desnecessários.
Não percebemos que o lixo que se avoluma em toneladas de resíduos, configurando os denominados lixões urbanos, montanhas inadministráveis de materiais inutilizados, alguns ainda novos, sem qualquer sinal de uso, que demorarão séculos a desaparecerem do planeta, são fonte permanente de degradação ambiental.
Degradamos o meio ambiente no processo de extração de nossas reservas naturais, sob a ilusão de que a instalação de empresas mineradoras, por exemplo, resultará em desenvolvimento para as cidades. Fornecemos isenção de impostos, a partir de argumentos vinculados a promessas de desenvolvimento local, deixando como resultado, alguns anos depois, crateras abertas, grandes bolsões de pobreza, órfãos abandonados, sem que tenha havido qualquer ganho real no sentido de investimento em saneamento básico, saúde, educação, cultura ou qualquer outro tipo de proveito que possa ser considerado significativo para a sociedade.
Permitimos que nossas florestas fossem sendo desmatadas, provocando perda irrecuperável das riquezas naturais, da biodiversidade, em sua esfera biológica e genética, coexistências múltiplas geradoras de vida e de beleza. Contaminamos a terra e os rios com agrotóxicos, financiados com recursos públicos, ao mesmo tempo em que deixamos morrer toda uma cultura milenar dos povos originários.
A crise climática, que coloca em risco a vida de todo o planeta, em sua mais absoluta diversidade, não poderá ser controlada se não ressignificarmos nosso modo de vida.
Não há recursos naturais suficientes para dar conta da cultura de consumo e de concentração de renda sob a qual construímos uma sociedade que desconsidera, ignora e invisibiliza o diferente, social, racial e economicamente falando.
A redução do desmatamento da Amazônia, indispensável para interromper ou minimizar as emergências climáticas no mundo, é um compromisso não apenas dos brasileiros, mas dívida histórica dos países desenvolvidos. Não adianta, entretanto, apenas cobrar de países ricos sua cota de responsabilidade histórica, se o Brasil não fizer seu dever de casa.
As incoerências precisam ser enfrentadas. De nada valerá ao presidente Lula reivindicar recursos internacionais para o enfrentamento da crise climática e a defesa ambiental, se continuar a política de investimento em combustíveis fósseis, defendendo, por exemplo, a exploração de petróleo na Amazônia.
Investir em uma política de financiamento de um agronegócio predador, consumidor, por excelência, de venenos que contaminam, destroem a terra e os rios, não é compatível com a proteção da vida e do SUS e do enfrentamento da fome e da miséria, políticas públicas sociais fundamentais ao desenvolvimento da nação e de respeito à dignidade humana, tal qual vem assumindo desde sua posse.
A crise climática precisa ser enfrentada a partir da concepção de que os mais vulneráveis estão mais suscetíveis às emergências do que os mais favorecidos social e economicamente, mas elas comprometem, em alguma medida, a vida de todos e todas e o futuro da vida na Terra.
Para além das viagens planetárias e dos passeios feitos por bilionários ao espaço, é preciso considerar que, ainda que as pesquisas científicas tenham avançado e nos permitam encontrar, algum dia, condições de vida em outros planetas, há um tempo lógico e cronológico a nos impedir de continuar o processo de destruição do planeta.
Por mais que sejamos otimistas, não haverá tempo suficiente para construirmos um outro planeta habitável se não nos comprometermos, todos, na defesa da vida no planeta Terra.

Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e coordenadora do doutorado em Direito da FDV

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Perseguição termina com moto invadindo loja no Centro de Vitória
Imagem de destaque
'Arregona', diz Jordana para Gabriela em bate-boca após a Prova do Anjo
Imagem de destaque
Passageiro causa confusão e ameaça motorista do Transcol com punhal na Serra

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados