Tem uma frase que circula muito pela internet atribuída a
Clarice Lispector. Depois tem outra. E mais uma. O problema é que boa parte
delas ela nunca escreveu de fato. Mas o fenômeno diz algo verdadeiro: a
linguagem de Clarice tem um poder que as pessoas sentem em qualquer coisa que
pareça profunda o suficiente.
Clarice Lispector (1920-1977) nasceu na Ucrânia,
chegou ao Brasil ainda bebê e cresceu em Recife. Formou-se em Direito, atuou
como jornalista e publicou seu primeiro romance aos 23 anos, Perto do
Coração Selvagem (1943), recebendo aclamação crítica imediata. Hoje é
considerada uma das maiores escritoras do século XX. Segundo o biógrafo
norte-americano Benjamin Moser, ela é a escritora judia mais importante do mundo desde Franz Kafka. Seus livros foram traduzidos para mais de dez idiomas
e foi a primeira brasileira a integrar a coleção Penguin Modern Classics.
Há um paradoxo curioso: apesar do culto em torno do seu nome, muita gente nunca chegou a abrir um livro dela de fato. Pensando nisso selecionamos 8 obras de Clarice Lispector para quem ainda não leu nada dela ou tem uma experiência fragmentada. A ordem não é cronológica nem de dificuldade: é uma sugestão de entrada, de acordo com o tipo de leitura que você está pronto para fazer agora.
Para começar: os livros mais acessíveis
1. A Hora da Estrela (1977)
O último romance publicado em vida por Clarice e, curiosamente, o mais indicado para quem nunca a leu. A história de Macabea, uma datilografa nordestina perdida no Rio de Janeiro, é narrada por Rodrigo S.M., um alter ego da própria autora que questiona o ato de escrever enquanto escreve. O livro tem pouco mais de cem páginas e uma força inversamente proporcional ao tamanho. Foi adaptado para o cinema em 1985 pela diretora Suzana Amaral e o filme figura entre os cem melhores filmes nacionais de todos os tempos, segundo a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine).
2. Laços de Familia (1960)
Uma coletânea de 13 contos que mostram o lado mais preciso de Clarice: ela pega situações domésticas corriqueiras, casamentos, visitas, passeios, e revela os abismos que se escondem sob a superfície. O livro ganhou o Prêmio Jabuti em 1961, a maior premiação literária do Brasil. Cada conto pode ser lido de forma independente, o que torna o volume ideal para quem ainda não tem hábito de leitura contínua. Você pode ler um por semana e já terá entrado no universo dela.
3. Felicidade Clandestina (1971)
Outro livro de contos, com 25 textos escritos ao longo de décadas, muitos de caráter autobiográfico. O conto que dá título ao volume é sobre uma menina apaixonada por livros e a crueldade de uma colega que tem o que ela deseja. É uma das obras mais diretas de Clarice para o leitor iniciante: os textos são mais curtos, o tom às vezes é quase memorialista, e a escrita surpreende pela clareza em meio à profundidade.
4. Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969)
Dos romances de Clarice, este é o mais próximo de uma narrativa convencional: tem personagens com nomes próprios, um arco de relacionamento, uma trama que se desenvolve de forma mais linear. A história gira em torno de Lori e Ulisses e a aprendizagem mútua de amar. Para quem prefere uma história com fio condutor mais claro antes de mergulhar no fluxo de consciência mais radical da autora, este é o ponto de partida mais indicado.
Para ir além: quando a primeira leitura já não basta
5. Perto do Coração Selvagem (1943)
O romance de estreia de Clarice, escrito aos 23 anos, ainda impressiona pela coragem formal. A história de Joana, uma jovem que navega entre a infância e a vida adulta em busca de si mesma, é contada em fluxo de consciência, intercalando passado e presente. Na época do lançamento, a crítica brasileira comparou o estilo a Virginia Woolf e James Joyce. O próprio livro respondeu à comparação: Clarice afirmaria mais tarde que nunca havia lido nenhum dos dois antes de escrevê-lo.
6. A Paixão Segundo G.H. (1964)
Considerada por muitos críticos a obra máxima de Clarice, este livro é sobre uma escultora de classe alta que, ao limpar o quarto da empregada, encontra uma barata e mergulha em um longo monólogo sobre existência, nojo, Deus e a essência do ser humano. É mais difícil e mais recompensador. Não é o melhor ponto de partida, mas quem chegar aqui depois das obras anteriores vai entender por que seu nome é citado ao lado dos grandes da literatura mundial.
7. A Maçã no Escuro (1961)
Um romance sobre Martim, um homem que foge após acreditar ter cometido um crime e, nessa fuga, reconstrói sua identidade do zero. O livro ganhou o Prêmio Carmen Dolores Barbosa no ano do lançamento. É uma obra mais narrativa que A Paixão Segundo G.H., com personagens mais delineados e um senso de movimento que sustenta a leitura mesmo quando a prosa se aprofunda nas camadas internas de Martim.
8. A Descoberta do Mundo (1984)
Uma coleção de crônicas publicadas originalmente no Jornal do Brasil entre 1967 e 1973, organizada postumamente. É o livro mais revelador sobre quem era Clarice fora da ficção: ela fala sobre o cotidiano, sobre escrever, sobre o Brasil, sobre a vida com os filhos. Para quem quer entender a pessoa antes de mergulhar de vez na obra literária, este livro é um caminho valioso. É também o mais indicado para ser lido aos poucos, uma crônica por vez.
Por onde começar, afinal?
Se você nunca leu Clarice, comece por A Hora da Estrela
ou por qualquer conto de Laços de Família. Se preferir um romance com
enredo mais linear, vá para Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. Se
quiser entender o fenômeno em vez de mergulhar direto na ficção, as crônicas de
A Descoberta do Mundo são um ponto de entrada gentil.
O que não existe, na obra de Clarice, é uma leitura que não deixe alguma marca. Essa é exatamente a questão.
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