Vivemos a pior crise da história recente e, ao invés de cooperarmos para a reconstrução social e econômica, deixamo-nos levar por “influenciadores digitais”, altos políticos e até robôs de fake news, que apenas colocam lenha na fogueira. Refiro-me aos inúteis conflitos como “liberalismo x socialismo”, também visto por suas tolas vertentes “direita x esquerda”, “público x privado” e afins.
Se o socialismo já caíra em 1989, suas últimas pretensões foram definitivamente soterradas no Brasil em 2003. E quanto ao Estado? Ora, ora, nesta crise seus mais ávidos adversários recebem de bom grado políticas keynesianas de crescimento econômico e de financiamento público em negócios inovadores de risco.
A Carta de Davos 2020 propõe a mudança nas políticas da iniciativa privada, deixando de lado a perniciosa cultura do “shareholder”, que visa apenas ao lucro de curto prazo, favorecendo especuladores e pomposos bônus aos altos executivos, atraindo desigualdade social, pelo modelo de “stakeholder”, visando um maior comprometimento das empresas com seu entorno, com sustentabilidade a longo prazo, preocupação com o meio ambiente, com o futuro da sociedade e, é claro, com seus trabalhadores. Alguns bons exemplos locais já são observados, como o apoio responsável que a Associação Comercial da Praia do Canto dá ao comércio do bairro, projeto capitaneado pelo empresário Cesinha Saade.
No campo do Direito do Trabalho, ainda insistimos na dicotomia “CTPS x autônomo”, ignorando a diversidade de novos tipos de trabalhadores e, mais grave, ignorando a brutal e antiga diferença entre o grande e o pequeno empregador. Tratando-os a lei como iguais, gera-se uma concorrência desleal em favor daquele, a ponto de o pequeno optar por informalizar ou fechar as portas, induzindo a uma queda nos salários médios do trabalhador.
Este comprometimento com o crescimento é o debate útil, focado em reformas estruturais e legais importantes para a recuperação da competitividade do pequeno negócio local, com aumento de renda para quem trabalha. A boa notícia é que a evolução tecnológica, como bem alerta o Dr. André Zipperer ("A intermediação do trabalho via plataformas digitais", 2019), “já permite descentralizar tudo e reduzir a necessidade de grandes empresas no processo”.
Isso significa que as pequenas já têm condições tecnológicas para competir e, se todos os players sociais agirem em cooperação, sem disputas virtuais inúteis, e com algumas reformas estruturais, abre-se espaço à esperança. Sugiro, finalmente, que se substitua a infantil disputa “cloroquina x tubaína” por “miséria x prosperidade”. E aí, qual a sua escolha?