Mercado de trabalho inteligente ou trabalho inteligente sem mercado?
Inteligência artificial
Mercado de trabalho inteligente ou trabalho inteligente sem mercado?
O GPT-4, por exemplo, promete a capacidade de produzir textos de qualidade, inclusive com nuances poéticas, de forma quase humana. Isso, sem dúvida, tem implicações profundas no mercado de trabalho
Há alguns dias, duas fotos ficaram muito famosas pelo mundo: na primeira, o papa Francisco com um jaquetão branco ultrafashion; a segunda, o ex-presidente estadunidense Donald Trump sendo preso de forma agressiva por policiais. As duas fotos têm em comum a inverdade, são fakes. Não se trata de meras montagens, mas criações gráficas feitas por inteligência artificial.
No último dia 22 de março, um grupo de pesquisadores da Microsoft publicou um artigo no “arXiv forum” intitulado “Sparks of Artificial General Intelligence: Early experiments with GPT-4” (Fagulhas de inteligência artificial geral: primeiros experimentos com o GPT-4), sugerindo que esse sistema de conversação dá sinais de ser uma forma primitiva de inteligência artificial geral, o que corresponde a ter habilidades sobre-humanas em algumas áreas do conhecimento.
No último dia 29 de março, mais de mil especialistas mundiais referendaram uma petição do Future of Life Institute intitulada “Pause Giant AI Experiments: An Open Letter” (Uma carta aberta: pausem experimentos gigantes com inteligência artificial). Dentre os signatários encontram-se os expressivos Yuval Harari, Steve Wozniak e Elon Musk.
Na carta, como se identifica no título, há um pedido a todos que suspendam, por pelo menos seis meses, pesquisas de largo espectro com plataformas sofisticadas de IA, como a maior delas, o GPT-4.
Um dia antes, Yuval Harari, acompanhado de Tristan Harris e Aza Raskin, publicou um artigo no New York Times alarmando a população sobre os riscos reais que a forma desregulada e sem critérios da IA podem corromper e destruir a cultura e a linguagem humanas.
Segundo os autores, assim como farmacêuticas não podem lançar novos medicamentos à venda sem antes submetê-los a rigorosos testes de segurança devidamente aprovados por agências responsáveis, “sistemas de inteligência artificial com o poder do GPT-4 e além não deveriam ser emaranhados às vidas de bilhões de pessoas a um ritmo mais veloz do que as culturas sejam capazes de absorvê-los...”.
Em última análise, a ideia é que o ritmo de domínio de mercado não deve ditar a evolução da IA. Essa evolução não pode ser “schumpeteriana”, devendo ter freios impostos por regulação de autoridades competentes, que devem ditar um ritmo que a sociedade e a cultura sejam capazes de processá-la, sempre respeitados princípios morais e éticos, exclusivamente humanos.
Inteligência artificial: o alerta de mil especialistas sobre 'risco para a humanidade' Crédito: Getty Images
O debate de ponta gira em torno de questões existenciais e da própria estrutura social moderna. De um lado a evolução desordeira da inteligência artificial geral (AGI, na sigla em inglês) e, de outro, a dependência humana a essa nova forma de pensar, já tem levado a consequências catastróficas, da preguiça intelectual à manipulação social por narrativas e fake news. E isso, indubitavelmente, traz uma reconfiguração desoladora no mercado de trabalho.
Há tempos já falamos do surgimento de novos algoritmos a cada dia, o que vem substituindo a mão de obra humana. Tais, tidos como inteligência artificial específica (narrow AI, do inglês), substituem o trabalho intelectual não criativo, mecanizado, como a tomada de decisões simples, baseada em dados precisos que melhoram a eficiência.
Por exemplo, na Justiça, substitui-se um servidor que analisa o processo, dentro de um razoável prazo (e “decide” enviar para o juiz julgar ou para as partes se manifestar), por um algoritmo que, de imediato, já dá o devido encaminhamento, conforme o andamento processual anterior.
O problema de inteligências artificiais amplas é que o espectro é ainda maior. As AGIs possuem a capacidade de aprender e lidar com uma ampla gama de tarefas, e isso levanta preocupações sobre o impacto que elas terão no mercado de trabalho humano. À medida que as empresas buscam cada vez mais eficiência e redução de custos, a automação e a inteligência artificial podem se tornar uma ameaça real para muitos trabalhadores.
Com a chegada de sistemas de inteligência artificial cada vez mais sofisticados, é possível que trabalhos intelectuais que anteriormente eram considerados seguros, possam ser substituídos por máquinas. Por exemplo, médicos, advogados e contadores.
O GPT-4, por exemplo, promete a capacidade de produzir textos de qualidade, inclusive com nuances poéticas, de forma quase humana. Isso, sem dúvida, tem implicações profundas no mercado de trabalho. Profissões como redator, jornalista e até mesmo escritor podem estar em risco. Como competir com uma máquina que é capaz de criar textos tão bem quanto um ser humano? A resposta para essa pergunta é incerta, mas é certo que muitas profissões que conhecemos hoje em dia irão desaparecer.
Por outro lado, a IA pode gerar novas oportunidades de trabalho, principalmente na área de tecnologia e desenvolvimento de algoritmos. Mas é preciso estar preparado para essa transição. Não basta apenas desenvolver novas habilidades técnicas, é necessário também investir em habilidades exclusivamente humanas, como criatividade, empatia e inteligência emocional.
A questão não é se a IA irá substituir o trabalho humano, mas quando isso irá acontecer e de que forma. É necessário pensar em políticas públicas e regulamentações que possam proteger os trabalhadores e garantir que a IA seja uma aliada do progresso humano, e não uma ameaça. Afinal, a evolução tecnológica é inevitável, mas é responsabilidade de todos garantir que essa evolução seja feita de forma ética e justa para todos.
Se você gostou da parte final do artigo, saiba que os cinco últimos parágrafos foram escritos por ele, meu novo amigo GPT-4, que carinhosamente chamo de Gepê. Percebeu alguma mudança estética? Ele ainda coloca alguns clichês, né? De qualquer sorte, parabéns a ele, mas já receio perder essa coluna para um robô.
Cássio Moro
E juiz do Trabalho, doutorando em economia, mestre em Processo, especialista em Direito do Trabalho e economista. Professor de graduacao e pos-graduacao da FDV. Neste espaco, busca fazer uma analise moderna, critica e atual do mercado e do Direito do Trabalho