“A César o que é de César, a Deus o que é de Deus.” A frase de Jesus Cristo pode inspirar uma reflexão sobre a crise ambiental: é preciso distinguir as leis da natureza das escolhas políticas. O clima e a biodiversidade obedecem a processos físicos, químicos e biológicos, não a agendas eleitorais.
Essa distinção não significa separar meio ambiente de economia e geopolítica. Ao contrário: as estratégias para lidar com a crise ambiental podem definir a ascensão ou declínio de países.
A energia oferece um exemplo na disputa entre as duas maiores economias do mundo, Estados Unidos e China, que seguem caminhos opostos.
Os EUA privilegiam a expansão do petróleo e gás, procuram preservar usinas a carvão e restringem incentivos a novos projetos solares e eólicos. Sua estratégia explora uma vantagem americana: a abundância de combustíveis fósseis. Ao estimular as exportações, Washington também transforma esses recursos em instrumentos de pressão comercial e influência geopolítica.
A China, embora ainda dependa fortemente do carvão, investe há anos na expansão das fontes renováveis e na indústria que as sustenta. O país adotou uma política de longo prazo que o consolidou como líder global da transição energética, instalando mais turbinas eólicas e painéis solares do que o restante do mundo somado.
Em 2026, as fontes de energia renovável já respondem por 40% do consumo total de energia da China, que planeja expandir em 53% a geração de energia eólica e solar até 2030 e zerar o uso de combustíveis fósseis até 2050. Além disso, produz equipamentos para a transição energética de outros países, como painéis, baterias, turbinas e veículos elétricos. Busca, assim, reduzir vulnerabilidades e conquistar mercados.
Não se trata de apresentar uma China ambientalmente virtuosa diante dos Estados Unidos indiferentes ao clima. Ambos têm contradições. O contraste está nas prioridades: enquanto os americanos apostam nos fósseis, os chineses procuram assegurar a liderança nas tecnologias que podem substituí-los.
À medida que os danos climáticos vão se agravando, cresce a pressão da sociedade por alternativas aos fósseis. As restrições a estes, que certamente virão, poderão custar competitividade aos EUA e levar a China a ampliar sua influência. Não é um destino inevitável, mas um risco estratégico que decisões de curto prazo não deveriam ignorar.
O Brasil também precisa olhar suas vantagens em conjunto. Uma matriz energética relativamente limpa, uma potência na capacidade de produzir alimentos, a abundância das águas e a maior floresta tropical do planeta são patrimônios interdependentes.
A ciência já mostrou que a degradação de um pode comprometer os demais. Não faz sentido tratar a proteção ambiental como obstáculo à economia quando parte expressiva da nossa prosperidade depende dela.
As eleições brasileiras, se consideramos os níveis Executivo e Legislativo Federal e dos Estados, sinalizaram um ambiente político favorável ao enfraquecimento da política ambiental, apesar da reeleição do presidente Lula, que reduziu em seu período em 46% a área desmatada da Amazônia em relação ao governo anterior, equivalente a quase a metade da área do Espírito Santo. Isso colocará em risco mais que florestas e espécies, mas a população e condições de desenvolvimento do país.
Nossas prioridades ambientais não são idênticas às de americanos e chineses, mas têm a mesma importância estratégica. Traduzem-se em água, saúde, alimentos, energia, segurança, empregos, inclusão social e direitos indígenas.
É disso que se trata quando discutimos meio ambiente: não de uma pauta à margem da vida nacional, mas das condições para construirmos nosso futuro.