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Carlos Roxo

Eleições são a hora de dizer o que queremos

Escolher candidatos que levem a sério a agenda ambiental não é votar em tema isolado. É votar por água, saúde, alimentos, energia, segurança, empregos, economia e pelo futuro do país

Publicado em 24 de Setembro de 2026 às 04:25

Públicado em 

24 set 2026 às 04:25
Carlos Roxo

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Carlos Roxo Carlos Roxo

Mesmo com as disfunções da democracia brasileira, as eleições permitem escolher representantes afinados com nossas convicções. A atenção se concentra nos cargos de presidente e governador, mas o voto para o Legislativo é decisivo, pois é ali que se definem leis e políticas que afetam nossa vida.


Em entrevista à revista Piauí, em 2 de setembro, o cientista político Mário Lago afirmou que as mudanças climáticas passaram a ser a condição a partir da qual todas as demais questões devem ser pensadas. Em coluna de 23 de agosto, Miriam Leitão observou que os candidatos ignoram o problema mais urgente da humanidade: a mudança do clima.


Concordo com o alerta, embora faça duas ressalvas. Em uma visão mais ampla, a mudança climática integra uma crise maior, a ambiental. E os grandes desafios contemporâneos não se resumem a ela. Geopolítica, guerras, democracia, economia, IA, desigualdade, fome, saúde e outras são questões interligadas.

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Talvez seja esse o ponto: a agenda ambiental, embora atravesse a vida nacional, continua a receber atenção secundária nas campanhas. Muitas vezes, é tratada como obstáculo ao desenvolvimento, quando deveria integrar um projeto de país baseado em ciência, segurança e bem-estar.


Os problemas ambientais brasileiros, como os globais, são numerosos e conectados. Afetam alimentos, água, energia, saúde, economia e a qualidade de vida. Ainda assim, raramente percebemos essa interdependência ou reconhecemos sua gravidade.


Entre tantas prioridades, citarei duas, sabendo que deixarei de fora várias outras.


A primeira é deter o desmatamento, sobretudo na Amazônia. Não se trata apenas de proteger a biodiversidade da maior floresta tropical do planeta. Ela ajuda a manter o regime de chuvas em grande parte da América do Sul. Sua umidade é levada pelos ventos a outras regiões, contribuindo para o abastecimento de água da agricultura, indústria, hidrelétricas e cidades. 


A preservação da Amazônia também é essencial para os povos indígenas: cerca de 51% da população indígena brasileira vive na Amazônia Legal. E a floresta é decisiva para conter o aquecimento global, pois sua destruição liberaria o carbono armazenado e alteraria criticamente o clima do planeta.


A segunda prioridade é preparar o país para efeitos já em curso. É preciso elaborar e executar planos de adaptação às mudanças climáticas. O calor extremo já é problema de saúde pública: estima-se que ondas de calor tenham causado milhares de mortes no Brasil nos últimos anos, embora estatísticas precisas sejam difíceis, pois poucos registros indicam “morte por calor”. 

Imagem BBC Brasil
Frequência das ondas de calor em diversas regiões do mundo preocupa cientistas Getty Images

União, estados e municípios devem proteger especialmente idosos, crianças, trabalhadores expostos ao sol e populações mais pobres.


Também são indispensáveis medidas contra secas e enchentes, que já atingem todas as regiões. Investir em prevenção custa muito menos do que financiar dívidas do agronegócio, reconstruir cidades, reparar estradas e socorrer famílias após uma tragédia. 


Mesmo assim, só cerca de 3% da área plantada no Brasil conta com seguro rural, ante 90% nos Estados Unidos. Nas cidades, medidas simples para reduzir alagamentos e deslizamentos são adiadas, enquanto se gastam fortunas para reparar os desastres, como no Rio Grande do Sul.


Poucos estados têm planos adequados de adaptação. Isso precisa mudar. A crise ambiental não se resolve no prazo dos mandatos. Seus efeitos se acumulam e alcançam a todos, seja qual for a renda, região ou ideologia.


Por isso, esta eleição é uma oportunidade para cobrar compromissos claros. Escolher candidatos que levem a sério a agenda ambiental não é votar em tema isolado. É votar por água, saúde, alimentos, energia, segurança, empregos, economia e pelo futuro do país.

Carlos Roxo

Carlos Roxo Carlos Roxo

Engenheiro ambiental, sócio da Maker Sustentabilidade e membro do Grupo Executivo da Coalizão Brasil Clima Florestas e Agricultura

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