A fala do presidente Lula que trata as eleições ocorridas no último domingo (28) na Venezuela como normais, por não terem, segundo ele, “nada de grave, nada de assustador”, representa uma enorme contradição e não reflete a realidade. Pior que a colocação do presidente foi nota de seu partido, o PT, para quem o processo eleitoral no país vizinho foi pacífico, democrático e soberano.
É bom lembrá-los que, diferentemente do que apregoam, governada pelo mesmo grupo desde 1999, a Venezuela ainda está muito longe de voltar a ter um regime verdadeiramente democrático e que respeite as liberdades individuais.
Após interferências robustas no Judiciário, restrições à liberdade de imprensa, mudança de Constituição e perseguição contumaz a opositores políticos, o ditador Nicolás Maduro conseguiu permanecer no poder, ainda que a manutenção mais decorra da força e da rapacidade que do apoio popular, já que não houve lisura muito menos transparência na última eleição.
Após Maduro, assim como Bolsonaro, sem provas, ter criticado o sistema de votação eletrônica brasileiro, dizendo que ele não seria auditável, as eleições na Venezuela se deram por voto impresso, e o ditador venezuelano, que controla o Conselho Nacional Eleitoral, recusou-se a divulgar as atas do pleito.
Diferentemente da votação eletrônica, o voto impresso, além das inúmeras outras fragilidades, é bem mais suscetível às fraudes de toda sorte, principalmente quando as atas da eleição são escondidas e mantidas sob o controle do maior interessado no resultado daquele processo eleitoral.
Ao contrário de outrora, os golpes de Estado bem-sucedidos atualmente não se dão necessariamente pela força física e capacidade bélica dos militares. As rupturas democráticas mais usuais se dão por aqueles que, após eleitos ou chegarem ao posto de chefia, utilizam-se, sub-repticiamente, dos mecanismos legais para desestabilizar as instituições, desprezar as regras do jogo democrático, perseguir opositores e a imprensa.
Desde a posse do presidente Lula, o governo brasileiro busca reconstruir as relações diplomáticas com a Venezuela, fortemente abaladas no governo anterior, quando o Brasil decidiu fechar sua embaixada em Caracas e adotou uma postura mais avessa ao país vizinho. O objetivo de reatar as relações diplomáticas, todavia, não pode se sobrepôr a valores que o Estado brasileiro considera inarredáveis, como a democracia e a primazia dos direitos humanos.
Assim como foram condenáveis os atos antidemocráticos cometidos pela extrema direita no Brasil há pouco mais de um ano, deve ser repudiada a interferência de Maduro no processo eleitoral da Venezuela. O modus operandi de Maduro em muito se assemelha àquele que Bolsonaro demonstrou ter disposição para implementar no Brasil.
O presidente Lula precisa lembrar que ele não governa apenas para um pequeno e restrito grupo do PT que coloca suas convicções ideológicas acima da realidade e de qualquer senso de coerência. Lula não foi eleito apenas por seu partido e pela extrema esquerda, pelo contrário, foi justamente a união de segmentos diversos que deu a ele a vitória sobre Bolsonaro em 2022. Mesmo muitos que não são apaixonados por Lula nele votaram como medida contra o autoritarismo e em prol da democracia.
Uma frente ampla elegeu Lula em defesa da democracia. Ao menos por coerência e respeito a esses eleitores, o presidente Lula deveria ter se posicionado como defensor da democracia na Venezuela, em vez de criar imbróglio político interno para defender um ditador assumido.