A Copa do Mundo é um daqueles momentos capazes de reunir milhões de pessoas diante da televisão. É justamente por essa capacidade de mobilização coletiva que preocupa o crescente espaço ocupado pelas casas de apostas esportivas durante as transmissões do torneio, especialmente em plataformas digitais como a CazéTV, alvo de críticas nas redes sociais pela quantidade de anúncios de bets exibidos a um público amplo.
Em diversos países e culturas mundo afora é comum que as pessoas apostem em esportes e eventos em geral, por exemplo. O ato pode ser e parecer inofensivo para a maioria dos indivíduos, contudo, é preocupante a naturalização de uma atividade que envolve riscos econômicos e psicológicos relevantes, apresentada ao espectador como uma forma simples, divertida e acessível de obter dinheiro.
Em muitos momentos da transmissão, a publicidade das bets não aparece como um anúncio isolado, mas como parte integrante do espetáculo esportivo, repetida à exaustão por narradores, comentaristas, influenciadores e ações de marketing. Se não fossem fadados a trazer prejuízos, esses jogos não seriam chamados de jogos de azar. Um bolão seria melhor que perder dinheiro numa bet.
Essa exposição massiva ocorre justamente em um ambiente de enorme audiência e diversidade de público. Diferentemente de conteúdos destinados exclusivamente a adultos, os jogos da Copa do Mundo são assistidos por famílias inteiras. De crianças a idosos são impactados por mensagens que associam apostas a sucesso, diversão, ganhos fáceis e pertencimento social.
Os efeitos dessa estratégia já são conhecidos. Multiplicam-se os relatos de pessoas que comprometem salários, economias e até recursos destinados à subsistência familiar em plataformas de apostas.
O empobrecimento decorrente do jogo compulsivo atinge principalmente os mais vulneráveis, justamente aqueles que enxergam nas apostas uma possibilidade de complementar renda ou escapar de dificuldades financeiras.
O resultado costuma ser o oposto: endividamento, conflitos familiares, ansiedade, depressão e outros transtornos relacionados à saúde mental.
A sociedade brasileira já enfrentou dilema semelhante no passado. Durante décadas, propagandas de cigarro foram presença constante na televisão, celebridades apareciam fumando, marcas patrocinavam eventos esportivos e o consumo era tratado como símbolo de status e liberdade.
Com o avanço das evidências científicas sobre os danos causados pelo tabaco, tornou-se claro que a liberdade econômica das empresas não poderia se sobrepor à proteção da saúde pública. Por essa razão, a publicidade de cigarros foi severamente restringida e, mais tarde, proibida nos meios de comunicação de massa.
As bets guardam diferenças importantes em relação ao cigarro, mas compartilham um ponto fundamental, ambos exploram comportamentos capazes de gerar dependência e produzir graves consequências individuais e coletivas.
Se hoje parece impensável assistir a uma partida cercada por propagandas de tabaco, talvez no futuro a sociedade enxergue com igual perplexidade a naturalização das apostas esportivas em eventos de alcance mundial.
O Congresso Nacional precisa enfrentar esse debate com seriedade. Não basta regulamentar a atividade e arrecadar tributos. É necessário discutir limites rigorosos para a publicidade, especialmente em horários e eventos com grande presença de crianças e adolescentes.
A proteção da população deve prevalecer sobre os interesses econômicos de um setor que cresce justamente à medida que mais brasileiros perdem dinheiro.