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Custo de vida

No Brasil atual é assim: se não tem feijão, que comam fuzis

Em meio à maior escalada inflacionária das últimas décadas no Brasil, de longe a mais grave desde a implantação do Plano Real, o efeito dominó da inflação tem levado muitos brasileiros a situações desesperadas

Publicado em 15 de Outubro de 2021 às 02:00

Públicado em 

15 out 2021 às 02:00
Caio Neri

Colunista

Caio Neri

Dinheiro, moedas, real
Os brasileiros voltaram a ser assombrados pelo fenômeno da inflação, que corrói o poder de compra Crédito: Siumara Gonçalves
Na campanha eleitoral de 2018, Jair Bolsonaro dizia que ele seria a única alternativa para o Brasil “não se tornar uma Venezuela”, país que convive com um governo autoritário e enfrenta uma grave crise política, econômica e social, marcada por sério caos humanitário e desabastecimento de gêneros básicos. O que ele não dizia é que queria uma “Venezuela” para chamar de sua.
De uns tempos pra cá, além das ameaças de ruptura democrática e do morticínio pela má condução do combate à pandemia de Covid-19, os brasileiros voltaram a ser assombrados pelo fenômeno da inflação, que corrói o poder de compra dos cidadãos e faz com que, cada dia, o mesmo salário valha menos para o trabalhador.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística confirmam o que os brasileiros já sabem quando precisam comprar comida: praticamente tudo aumentou. Em 2021 o fubá de milho aumentou 26,78%, o frango teve alta de mais de 22%, isso sem contar a inflação de quase 18% na conta de energia elétrica e o aumento dos preços dos combustíveis beirando os 40%. Nem o tradicional cafezinho foi poupado, neste ano, o artigo presente nas mesas de quase todos os brasileiros aumentou cerca de 25%.
Em meio à maior escalada inflacionária das últimas décadas no Brasil, de longe a mais grave desde a implantação do Plano Real, o efeito dominó da inflação tem levado muitos brasileiros a voltarem a cozinhar em fogões à lenha e à tentativa desesperada de aproveitar restos de alimentos que iriam para o lixo ou para animais.
Dentre as diversas notícias nesse contexto que mais chamaram minha atenção está o caso de uma mãe que, sem condições para pagar o gás, tentou utilizar álcool para gerar fogo e aquecer a mamadeira do bebê, porém, numa explosão, a mãe (que estava grávida de um segundo filho) e a criança saíram gravemente feridas.
Também tem causado desconforto certa naturalização da extrema pobreza, que dá a entender que a população deveria se adaptar a essa cruel realidade, por exemplo: “Afinal, tem problema comer pão mofado?” ou “Saber fritar ovos é crucial para a sobrevivência no confinamento”. E, em meio a todo esse caos, com tanta gente passando fome, para Paulo Guedes e Jair Bolsonaro, o país está uma maravilha.
Paulo Guedes chegou a questionar qual seria o problema de a energia estar mais cara. Já Bolsonaro, num tom de deboche reiterado contra os brasileiros, disse que quem quer comprar feijão é idiota e que deveríamos comprar fuzis. Parece que Guedes e Bolsonaro incorporaram uma frase que alguns atribuem à rainha Maria Antonieta que, ao saber que não havia pães devido ao aumento dos preços, teria dito: “Se não têm pão, que comam brioches”. Nos tempos atuais ficaria assim: “Se não têm feijão, que comam fuzis”.
O acesso à alimentação sempre foi difícil para as camadas com menor renda. Antes, era comum que as altas de proteínas impedissem o brasileiro de colocar a “mistura” no prato de suas famílias. Hoje, principalmente os mais pobres, não conseguem comprar a “mistura” e está cada vez mais caro comprar o básico, o tradicional arroz e feijão.
E não foram apenas a pandemia e o auxílio emergencial que puxaram a inflação (como querem convencer os governistas). Na verdade, o fator político em muito impactou a realidade do país, que começou a perder investimentos e foi vendo sua moeda em franca desvalorização.
Com isso, a comida que poderia ser consumida aqui passou a ser cada vez mais exportada. Ou seja, os produtores lucraram exportando muito e o que não foi exportado (a produção que sobrou), gerou lucro na venda ao consumidor interno. Já que a produção não diminuiu, só aumentou, bem como os lucros de gigantes da área alimentícia, como a JBS e a Camil.
Enquanto o governo federal continuar apenas pensando nas eleições de 2022 sem se preocupar com a escalada inflacionária, a insegurança alimentar será agravada e as desigualdades sociais crescerão cada vez mais, diminuindo a qualidade de vida do brasileiro, sobretudo daqueles que já não tinham muita qualidade de vida. Quem tem fome tem pressa!

Caio Neri

E graduado em Direito pela Ufes e assessor juridico do Ministerio Publico Federal (MPF). Questoes de cidadania e sociedade tem destaque neste espaco.

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