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República

Se povo foi às ruas após a carta de Vargas, o que fará agora?

Entrevista de Sergio Moro foi mais reveladora do que documento de ex-presidente, escrito antes de seu suicídio. Era do combate à corrupção provou-se incapaz de combater a corrupção sistêmica que corrói as instituições políticas do país

Publicado em 24 de Abril de 2020 às 14:54

Públicado em 

24 abr 2020 às 14:54
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, fala a imprensa sobre seu pedido de demissão do cargo
O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, fala a imprensa sobre seu pedido de demissão do cargo Crédito: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Os acontecimentos envolvendo a presidência da República no Brasil nos últimos dias parecem seguir um modelo histórico, que começa com grande popularidade, seguido por tentativas frustradas de mudanças estruturais, coroadas por desmandos e autoritarismo, com busca de bodes expiatórios e, enfim, um último ato magistral daqueles de tirar o fôlego dos telespectadores atônitos diante das telas da televisão, do celular e dos computadores!
A República brasileira flerta desde o seu nascimento, em 1889, com o autoritarismo. Fruto de um primeiro golpe, ampara-se, desde então, na força estética e militar do Exército brasileiro. Sempre que a presidência entrou em crise, tivemos algum tipo de intervenção militar, oculta (lembro do Contragolpe ou Golpe Preventivo do Marechal Lott em 1955) ou ostensiva, como a que vivemos em 1964.
Ora, depois de mais de 30 anos da Constituição Cidadã, o povo brasileiro, seguindo a tendência mundial de recrudescimento dos valores democráticos em nome da segurança e do combate à corrupção, elege um novo presidente da República que promete mudar a cara da política brasileira. O seu compromisso era o combate à corrupção e à violência, os grande males do país. Para isso, traz consigo no Ministério da Justiça a maior estrela no combate à corrupção do Brasil à época, o juiz e agora ex-ministro Sergio Moro, o grande herói da Operação Lava Jato.
Pois bem. Hoje acabamos de assistir ao grand finale da encenação grotesca da era Bolsonaro contra a corrupção no Brasil. O seu ator principal sobe ao palco, ao vivo e em cadeia nacional, para dizer que viu dentro do governo, com olhar privilegiado, atos da própria presidência de República de desmandos e imiscuição na Polícia Federal.
Esse atuar do presidente, segundo Moro, torna-se, então, incompatível com a democracia e com o Estado de direito, que ele jurou como magistrado e ministro da Justiça proteger. Seria contraditório, portanto, permanecer como ministro neste governo e renuncia ao cargo.
Muito se pode especular aqui, pois um ato final tão grandioso, mesmo na história política brasileira, nunca se viu. Mesmo que o trâmite seja uma repetição do passado, a grandiosidade da cena de encerramento desta sexta-feira (24) supera tudo o que já se viu, ouso dizer que até mesmo a Carta Testamento de Getúlio Vargas tinha um conteúdo menos revelador, tanto é que ainda hoje se especula sobre ela. A entrevista coletiva de Moro foi mais direta do que a carta de Vargas, isso já se pode dizer.
Se a população foi à rua em massa após tomar conhecimento da carta de Vargas, o que será que os cidadãos brasileiros vão fazer agora?
Há muito que se analisar, se observar e debater ainda, mas, certamente, podemos dizer que a era do combate à corrupção provou-se incapaz de combater a corrupção sistêmica que corrói as instituições políticas do país, inclusive a presidência da República.
Enfim, Moro continua vivo, mais do que nunca, e seu pedido de demissão já entrou para a história!

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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