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Sociedade

O problema de não fazer nada quando se presencia o racismo

Às vezes é um olhar racista, por outras é uma agressão mais grave, como a de seguranças que inquirem pessoas negras em supermercados, lojas e shopping centers no Brasil inteiro

Publicado em 03 de Agosto de 2022 às 01:00

Públicado em 

03 ago 2022 às 01:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

Bruno Gagliasso com os filhos Chissomo Ewbank Gagliasso (Titi ), Bless Ewbank Gagliasso
Bruno Gagliasso com os filhos Chissomo Ewbank Gagliasso (Titi ), Bless Ewbank Gagliasso Crédito: Reprodução/Instagram @gioewbank
Duas situações de racismo que ocorreram recentemente na Europa nos chamam a atenção pelo sentimento de ódio demonstrado pelos agressores em relação às vítimas negras. No sábado passado (31),  os dois filhos negros de Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso e um grupo de angolanos foram verbalmente agredidos num restaurante na Costa da Caparica, localidade de férias perto de Lisboa, em Portugal.
Na sexta-feira (29), o nigeriano Alika Ogorchukwu foi agredido até a morte nas ruas da cidade italiana de Civitanova Marce. O nigeriano vivia com a família, com a esposa e dois filhos na Itália. Após ser atropelado por um carro, perdeu o emprego fixo e passou a vender produtos na rua. Foi justamente quando vendia seus produtos que ele foi atacado por um cidadão italiano, diante de várias pessoas que não fizeram nada para ajudá-lo. E, o pior, filmaram tudo que aconteceu.
Refletindo sobre as duas situações surgem as perguntas: o que as pessoas devem fazer diante de um caso de racismo? Somente filmar ou intervir para que a agressão seja suspensa? Devem chamar as autoridades policiais para que o agressor seja preso em flagrante?
Além dessas perguntas, outra questão anterior vem sendo colocada nas redes sociais: o que deve e pode uma pessoa branca fazer ao presenciar um ato de racismo?
Djamila Ribeiro, filósofa brasileira negra, em seu livro “Lugar de Fala” diferencia a manifestação do próprio negro ofendido daquela que deve ser a da pessoa branca que presencia a agressão racista. Existe, sim, um lugar de fala próprio do povo negro para expor o racismo e exigir a reparação, isso é indiscutível. A posição da pessoa branca, porém, não é irrelevante, segundo a filósofa.
Consciente do seu lugar privilegiado – até mesmo de fala – na sociedade, a pessoa não negra pode e deve intervir em situações como as narradas acima para fazer parar a violência, a verbal e a física. Idealmente, essa última não deve levar a mais violência, de modo que recomenda-se chamar a polícia.
O que causa espanto no segundo caso, em particular, é a agressão duradoura que levou à morte de Alika Ogorchukwu ter sido filmada em sua integralidade. Durante os momentos em que ele era agredido até a morte alguém segurava uma câmera (provavelmente um celular) muito próximo ao fato, mas não fez nada além de filmar.
Esse é o problema: o não fazer nada diante do racismo que acontece reiteradamente no nosso dia a dia, nas mais simples como nas mais complexas situações da vida. Às vezes é um olhar racista, por outras é uma agressão mais grave, como a de seguranças que inquirem pessoas negras em supermercados, lojas e shopping centers no Brasil inteiro, sob a suspeita latente e sempre presente de que elas estariam prestes a furtar algo do estabelecimento.
A premissa equivocada que estrutura as relações sociais brasileiras são tão perniciosas que determinam desde a infância a forma como pessoas negras devem ser comportar na sociedade. O agir assim ou assado, estar sempre com a carteira de identidade em mãos, não usar capacete dentro de supermercado, guardar a nota fiscal de toda compra no supermercado, etc.
São várias as regras não escritas que o povo negro tem que seguir para se adequar à vida em um país onde é a maioria numérica, mas é a minoria oprimida e subjugada.
Já é passada a hora de todos os não negros agirem de forma expressiva contra o racismo, para que construamos uma sociedade intolerante às práticas discriminatórias e humilhantes que vêm sendo aguentadas pelo povo negro há séculos neste país. Afinal, se não defendermos a dignidade de todos como valor mínimo e essencial da vida humana, não podemos nos considerar uma sociedade digna.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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