Existem várias formas de violência e todas elas permeiam a vida do brasileiro. Naturalizada pela maioria da população, a violência é invisibilizada e normalizada na vida cotidiana no Brasil. Mas não podemos permitir que execuções de jovens negros na periferias das grandes cidades sejam somente mais um dado estatístico, devemos nos perguntar o que há de errado com uma sociedade que simplesmente aceita o extermínio de pessoas.
A violência pode não se apresentar somente como violência física, ela é também simbólica e permeia de forma latente as relações entre as pessoas durante toda a sua vida. A ela soma-se o racismo que é estrutural nas relações de poder no Brasil, ou seja, aqueles que detêm o poder cuidam de manter as estruturas das instituições sociais discriminando o povo negro. Primeiramente tidos como corpos escravizáveis, depois como seres desprezíveis e menos dignos de direitos, hoje passaram a ser, simplesmente, corpos matáveis.
São justamente as forças policiais do Estado brasileiro, dentre elas as polícias militares, penitenciárias, civis e federais, que ao exercerem o poder de executar a força da lei, julgam-se na posição de decidir no momento em que presenciam um ato ilegal quem deve morrer e quem deve viver.
Esse estado de coisas, que no Brasil podemos dizer que, no mínimo, vem desde o golpe militar de 1964, militarizou a força da lei. Em outras palavras, para que fique mais claro, prioriza-se aqui no país a execução da vontade da lei por meio de sujeitos armados e investidos no poder policial ao invés de um julgamento pelo Poder Judiciário.
Assim, antes mesmo de possibilitar ao sujeito que tenha violado uma disposição legal um julgamento justo e digno, um procedimento anterior acontece nas ruas das cidades brasileiras. Determinados grupos populacionais, que há anos vem sendo criminalizados em razão da sua cor de pele (negra) e domicílio (comunidades nas periferias das grandes cidades), antes mesmo de chegar aos tribunais são alvejados por balas silenciadoras do seu direito de existir e viver dignamente.
De acordo com o Atlas da Violência de 2021, uma publicação conjunta do IPEA e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 77% das vítimas de homicídio no Brasil são negras. Um negro tem 2,6 chances maiores de ser assassinado no país do que um não negro. Em operações policiais, segundo o relatório Rede de Observatórios da Segurança: Pele alvo: a cor da violência policial, de 2021, pelo menos em seis Estados do Brasil, uma pessoa negra é morta a cada quatro horas em operações policiais.
O Espírito Santo não figura nesse estudo, mas no dia 2 de abril, na Grande São Pedro, na periferia de Vitória, um jovem negro de 24 anos foi assassinado com dois disparos por um policial militar durante um operação policial. O padrão se repete, portanto, aqui também: jovem, negro, na periferia.
Vídeos divulgados pela imprensa mostram o rapaz com as mãos levantadas para cima, entregando-se ao policial, que dispara contra ele, mesmo assim.
Temos no Brasil uma geração inteira que se perde por meio de ataques infundados, desrespeito às regras do devido processo legal e, mais do que tudo, da total desconsideração da humanidade do ser assassinado. Afinal, desde a escravização dos negros, eles não são vistos como gente, contra eles sempre pôde tudo, para eles e em favor deles a lei não vale.