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Violação de direitos

Censura ao jornalismo no mundo não poupa nem quem recebeu o Nobel da Paz

Os dois jornalistas premiados no ano passado estão hoje em situações calamitosas e de recrudescida perseguição pelos sistemas estatais de justiça e de polícia em seus países

Publicado em 06 de Julho de 2022 às 02:00

Públicado em 

06 jul 2022 às 02:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

Nobel
Ilustração mostra Maria Ressa e Dmitry Muratov, vencedores do prêmio Nobel da Paz de 2021  Crédito: Foto: Reprodução/Prêmio Nobel
O Prêmio Nobel da Paz do ano passado (2021) foi concedido a dois jornalistas, à filipina Maria Ressa e ao russo Dmitry Muratov. Os dois são jornalistas e editores de jornais considerados independentes em seus países, por publicarem notícias e críticas às autoridades governamentais, sem submeter-se a censuras prévias ou mesmo posteriores.
Porém, mesmo tendo sido o Prêmio Nobel concedido em outubro do ano passado (2021), há muito pouco tempo, os dois jornalistas estão hoje em situações calamitosas e de recrudescida perseguição pelos sistemas estatais de justiça e de polícia.
Nas Filipinas, o site rappler.com corre o risco de ser tirado do ar a qualquer momento. No último dia 30 de junho, em Manila, assumiu o poder do governo central das Filipinas Ferdinand Bongbong Marcos, filho do ex-ditador Ferdinand Marcos, que ficou 36 anos no poder até 1985. Marcos recebe agora o governo presidencial das mãos de Rodrigo Duterte, famoso pela sua implacável guerra às drogas que levou milhares de pessoas à morte injusta.
Entre jornalistas que ousavam denunciar as atrocidades cometidas em nome da Guerra às Drogas de Duterte está justamente Maria Rissa e o portal de notícias rappler, que mostraram terem sido mais de 7000 pessoas assassinadas em nome de um suposto combate às drogas nas Filipinas de 2017 até o fim do mandato de Duterte.
No mesmo dia em que Marcos assume, em decorrência de uma decisão do governo anterior, o rappler recebe uma ordem de fechamento emitido pelo órgão governamental responsável pelo recolhimento de impostos no país. Entidades de jornalistas ao redor do mundo denunciaram se tratar de mais uma tentativa de censurar o portal de notícias e, em especial, Maria Ressa, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em razão do trabalho que faz em divulgar as graves violações de direitos humanos praticadas pelo governo.
Já na Rússia, o segundo ganhador do Prêmio Nobel da Paz Dmitry Muratov, redator da Novaya Gazeta, foi obrigado a fechar o jornal em março de 2022 quando passou a insistir em chamar a invasão da Rússia à Ucrânia de guerra, o que não é aceito pelo governo central em Moscou.
Além de ser obrigado a fechar o jornal em razão de represálias e ameaças de perseguição, Dmitry resolveu leiloar a medalha de ouro de 23 quilates que ganhou em Oslo, representando o prêmio, neste mês de junho. Em decorrência de um reviravolta inesperada durante o leilão da medalha, Dmitry conseguiu vendê-la no último dia 21 de junho por 103 milhões de dólares, segundo noticiou a  CNN.
O valor do prêmio, de 500 mil euros, Dmitry já havia doado para instituições de caridade, agora o valor levantado pelo leilão será por ele revertido às vítimas ucranianas da Guerra iniciada pela Rússia. Nada mais simbólico!
Essas duas histórias de vida, de dois ganhadores do Nobel da Paz, revelam-nos os rumos perversos que a política internacional vem tomando ultimamente. Até algum tempo atrás os laureados com o Nobel da Paz eram protegidos como que por um manto sagrado, até mesmo em seus territórios nacionais, pois os governos sentiam-se impedidos moralmente de censurá-los.
Hoje em dia, como vemos na invasão da Ucrânia, mesmo o risco de sanções e sanções já aplicadas não são mais instrumentos eficazes de dissuasão. Mesmo que o problema do jornalismo livre não seja um ponto específico das sanções ou das guerras, é exatamente ele que possibilita uma visão investigativa e crítica das violações de direitos humanos que acontecem mundo afora, inclusive aqui no Brasil.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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