Posso dizer que este é um pedaço de uma crônica infinita. Começou a ser escrita em 12 de fevereiro de 1984, dia em que me chegou a notícia da morte de Júlio Cortázar. Faz parte de meu incondicional amor por esse Cronópio Maior que me fez desejar a leveza e a alegria de ser uma cronópia também.
Para quem não leu ou leu e não se lembra, no delicioso “Histórias de Cronópios e de Famas”, Cortázar imaginou os cronópios como criaturas sensíveis, idealistas, um pouco ingênuas. Ao contrário dos famas (pretensiosos e formais) e das esperanças (coisinhas ignorantes e aborrecidas).
Nos dias de hoje, em que a produção literária brota como cogumelos na chuva e está sendo regida pelas redes sociais e canais da internet, talvez muita gente não conheça o autor de Rayuela ou ignore tantas coisas incrivelmente estranhas, fantásticas e belas criadas por ele. Também há gente novidadeira, ávida por se mostrar atualizada e na crista da onda, que acha que ele não passa de um membro menor do realismo mágico, que perdeu a graça com o passar dos anos, que só é apreciado por adolescentes, que está ultrapassado ou qualquer uma dessas inúteis, vazias e pretensiosas besteiras.
Mas isso não importa. E creio que a ele também não importaria. “Sou essencialmente um animal literário”, dizia. Quem faz literatura sabe que ser um animal literário é estar sujeito aos caprichos de leitores, aos esquecimentos, às variantes dos modismos e da época. Afinal, fazer literatura é um negócio de risco. Além de escritores, envolve críticos, estudiosos, acadêmicos, comentadores, revisionistas, detratores ou apaixonados.
Um verdadeiro animal literário escreve pelo gozo de criar e escrever. E ainda dá bom dia, com humor, aos caprichos dos circuitos de promoção midiática, intuindo com sabedoria paciente e infinita que o importante é seguir criando e escrevendo, e que nunca faltará alguém, em algum lugar, em algum tempo, em alguma ocasião, para amar ou odiar, destratar ou elogiar um romance, um conto, um poema ou um escrito qualquer.
Assim, fica o consolo de pensar que nem todos os comentários, nem todos os louvores, nem todos os ataques do revisionismo, nem todas as críticas eruditas ou pseudoeruditas, nem todos os ressentimentos, nem todas as paixões, que rodeiam quem se dá à bendita profissão da escrita, dão conta do mistério e da graça que emanam da literatura essencial de Cortázar. Uma literatura que transcende a morte, permanece e vai muito além das invencionices da moda e dos ventos das opiniões inconstantes.