Quando eu era criança (alguém vai dizer que isso já se perdeu há muito na espuma do tempo. É verdade, porém não invalida o fato de que a vida humana não passa de uma primeira prestação da alma, como diz Nabokov).
Pois bem, quando eu era criança, muitas vezes sentava-me ao chão e me deleitava olhando as rachaduras e as depressões na parede de meu quarto. Forçando o cristalino com leve distensão, deixava o olho a vagar livremente sobre elas, vendo imagens que se transformavam sob efeito da luz que entrava pela vidraça da janela.
Eu sabia que se tratava de imperfeições do reboco das velhas paredes feitas da massa de estuque com que se montavam as casas do interior. Mas, para mim, eram peças de um mundo de figurações diferentes da realidade de meu dia a dia.
Um universo de imagens em que minha fantasia descobria bichos, anões, borboletas, criaturas de asas, figuras fantasmáticas, luminosas e tremeluzentes, enfim, um mundo de brincadeira que me parecia, porém, tão real quando o mundo do cotidiano.
Isso tudo eu já disse, mais ou menos, com as mesmas ou com outras variadas palavras, e vocês podem conferir no prólogo de um livrinho “O jogo dos filmes: notas sobre o lúdico no cinema”, que escrevi toda esperançosa de que estudantes e professores da área cinematográfica pudessem ler e repartir comigo as sensações de ver um filme sob a ótica daquele mesmo estado integral de ludicidade que eu tinha vendo as imagens ilusórias na parede de meu quarto da infância, sem outras preocupações teóricas ou elitistas (que são muito chatas, por vezes).
Mas é claro que a gente quase sempre se engana. O senso comum (e isso inclui o senso de muitos professores que desprezam a atividade lúdica, quando se trata de ensinamentos, por achar que jogar e brincar se opõem à atitude aclamada pela racionalidade dita “séria), o senso comum não permite brincadeiras nem jogos, apenas considera o que chamam de seriedade no ensino, o que não raro resulta em uma aridez infinita, em uma aprendizagem sem gosto e sem prazer, que logo se esgota, assim que estudantes findam seus cursos e partem para a luta da vida cotidiana.
Talvez eu esteja filosofando barato, pois que não sou filósofa. Não passo de uma escritora que sonha com uma melhoria do mundo ao redor e sente que esse mundo ao redor está se desfazendo.
Não lamento o pouco caso de alguns para com as ideias que, por vezes, parecem estapafúrdias, mas lamento o desprazer e a rigidez com que tantas pessoas preferem adotar a mediocridade e o orgulho de seus dotes científicos, renunciando aos tesouros da fantasia, do humor e da imaginação.