O que tem de gente escrevendo e publicando não está no gibi. Parece que a pandemia deu asas à imaginação de quem tem ou de quem não tem o dom da palavra. O dom da palavra é uma forma de pensar da cultura africana. Mediante esse dom, a criatura humana impõe seu poder sobre as coisas do mundo. A literatura, oral ou escrita, resulta desse poder. Não é mesmo uma formosa forma de conceituar a literatura? A Mãe África, como sempre, é fonte de coisas bonitas.
Mas voltemos ao fato de que está existindo fartura de publicações literárias. Tangidas talvez pelo isolamento que as pessoas, com a imaginação fustigada pela presença do vírus e da morte, foram obrigadas a adotar. Não é apenas isso, porém. As tecnologias de editoração atuais têm parte da culpa no cartório. Hoje, ficou muito mais fácil publicar de que antes. Há alguns anos, a pessoa escrevia um romance, uma coletânea de contos, um apanhado de poemas (como sempre muito mais estes últimos que aqueles dois primeiros), fazia um pacote e mandava para uma editora.
Por sua vez, a editora determinava alguém para ler os originais (quase sempre datilografados com muito capricho) e opinar se valia ou não valia a pena investir em um produto que talvez só visse a luz da publicação se houvesse sinais de um acolhimento no mercado livreiro. O que significa se o livro “prometia vender”, nem que fosse com o empurrãozinho de um crítico amigo ou de um júri de concurso que simpatizasse com a história.
Quem já viveu a experiência sabe como era angustiante aquela eternidade da espera de um sim ou de não, por parte dos deuses editoriais. Você até sonhava que estava recebendo uma resposta. Isso quando uma resposta havia.
Agora, qualquer pessoa pode se dar o luxo de cuidar por si mesma de sua obra. O autofinanciamento virou feijão com arroz. Basta que a autora (ou o autor) tenha disposição de investir uma grana, que pode ser modesta e até negociada com uma editora mirim, dessas que, em ótima hora, estão surgindo que nem cogumelo na chuva.
O que é libertador e muito legal (nos dois sentidos: muito bom e muito dentro da lei). Aliás, grandes nomes da literatura começaram assim, com pequenas tiragens, impressas em gráficas ao alcance do bolso.
Portanto se a mosca dourada da vontade de publicar um livro mordeu sua pele, não perca seu tempo. Vá à luta. Procure uma das encantadoras editoras miúdas, que sempre trabalham com afeto e respeito, confie a ela seu sonho e seja bem-vinda (bem-vindo) ao reino das palavras: aqui sempre cabe mais uma (ou mais um).