Quem conhece a obra de Flaubert sabe que o escritor trata qualquer representação de uma realidade histórica do passado como uma citação, e não como uma descrição dessa realidade. Isso porque, em uma representação do passado, não existe uma voz, um depoimento, uma testemunha qualquer em tempo real, para atestar a autenticidade do que está sendo dito, ouvido ou mostrado. Assim, é certo que ninguém pode exigir uma perfeita exatidão em representações do passado ou tomar uma representação do passado como verdade única.
Nem nomes, nem datas, nem documentos, nem acontecimentos, nem edificações pertencentes ao passado e que sobrevivem na memória do tempo deixam de ter uma certa instabilidade, uma certa incoerência, uma certa oscilação, uma certa incerteza. No entanto, é impossível negar que o conhecimento do passado exerce em nós um profundo fascínio. Sobretudo porque dá sentido à identidade que reveste nosso mundo vivido.
Lembrando, porém, que até mesmo o sentido identitário apresenta variações que dependem das mais diferentes circunstâncias com que historiadores, escritores, artistas ou quem mais quer que seja tente efetuar as representações do passado. “Cada cotidiano, cada cultura em particular pode ser vista como uma concretização específica e uma seleção de possibilidades contidas no mundo da vida”, ensina Hans Ulrich Gumbrecht, em seu livro “1926: vivendo no limite do tempo”.
Com essas convicções, eu sempre me preparo para ler ou ver ou ouvir obras que remetam a realidades históricas, como é o caso do e-book “De Vasco a Vila: trajetória de uma cidade através de seus acervos, Catálogos do Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha”, organizado por Luiz Paulo Rangel e Marcello França Furtado.
A importância maior desse registro é que ele revela cuidado, atenção e afeto por parte de quem se engajou no projeto de que resultou o e-book, deixando passar um sopro de ancestralidade atravessada por tantos relatos, imagens, fotografias de quadros e de objetos. Um conjunto harmonioso que, mesmo consideradas as oscilações que todas as representações históricas apresentam, é um esforço memorial para fixar fragmentos do passado e expô-los ao conhecimento e à visitação no presente.
Tratado com dignidade e nobreza, esse registro do acervo do IHGVV, exposto na Casa da Memória, é um verdadeiro tesouro de nossas raízes ancoradas nesta cidade-berço da miscigenação cultural capixaba: Vila Velha, a estação primeira daquela parte de nossa História que começa com a chegada dos portugueses em solo do Espírito Santo.