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Crônica

As urdiduras da tecnologia: nem o futuro escapa

Com a IA, uma névoa de informações, criações, pensamentos e sentimentos vai cobrindo o passado e o presente. Tudo que foi pode ser transformado naquilo que que não foi; tudo que é pode ser mudado naquilo que não é

Publicado em 22 de Abril de 2025 às 02:00

Públicado em 

22 abr 2025 às 02:00
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

Uma vez, um escritor búlgaro chamado Elias Canetti escreveu: "Você consiste apenas em estruturas”. A frase era dirigida aos seres humanos. Parece esquisita, porém é profética. Ninguém pode negar que chegamos a uma época em que a Inteligência Artificial, em toda sua pompa e glória de artefato simulador, faz coisas “nunca antes” vistas na história deste planeta. Por exemplo: transformar em cartuns a memória visual, privilégio guardado há muitos séculos pela pintura e pela fotografia.
Esse tsunami da transformação de fotos em cartuns que inunda as redes sociais é mais um fenômeno acontecido no Reino da Tecnologia. De repente, você ou qualquer pessoa registrada pelas lentes da câmara de um fotógrafo passa ser uma figurinha quase patética, digna de figurar em um desenho de ilustrador de revistas de histórias em quadrinhos.
E não se pode dizer que não haverá muitas outras histórias como essa, demonstrando como a tecnologia vem afetando nossas interações com os modos de conviver com as expressões da arte, com os costumes e com as convivências humanas. Como ironicamente registra o escritor Maurício Nunes, em sua página “A Toca do Lobo” (que aliás é uma ótima exceção às bobices usuais que aparecem no facebook): “A humanidade — essa obra-prima da evolução que saiu das cavernas, descobriu o fogo, pintou a Capela Sistina e escreveu Dom Quixote — finalmente alcançou seu ponto mais alto: festas de aniversário para bonecas reborn”.
Nada disso, porém, é novidade se a gente pensar que há longo tempo a humanidade vem tentando se perpetuar na memória das inovações tecnológicas. Qualquer compêndio escolar vai ensinar que as primícias da IA estão na década de 1950, quando John McCarthy, um cientista estadunidense com cara de um desses cientistas malucos que aparecem em filmes de bordas, cunhou o termo "inteligência artificial" para batizar suas experiências no campo computacional.
De lá para cá, muita água correu por debaixo da ponte que cruza os caminhos das melhores e piores intenções existentes nas atividades praticadas nos muitos setores da existência humana. E parece que, em todas, a IA vai dando continuidade a seu irreversível percurso.
Com a IA, uma névoa de informações, criações, pensamentos e sentimentos vai cobrindo o passado e o presente. Tudo que foi pode ser transformado naquilo que que não foi; tudo que é pode ser mudado naquilo que não é. E disso nem mesmo escapa o futuro. Ninguém em sã consciência pode informar se o futuro será utópico ou distópico, útil ou assustador. Isso se houver futuro neste nosso tão malcuidado e devastado planeta azul.

Bernadette Lyra

E escritora de ficcao e professora de cinema. Escreve as tercas-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporaneos

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