Profissionais em atividade no frigorífico Rioja, no Rio de JaneiroCrédito: Foto do leitor
As negociações de compra e venda envolvendo o empresário Creso Suerdieck Dourado e a rede de supermercados Santo Antônio, que há mais de 50 anos atua em Guarapari, já extrapolaram os limites do Espírito Santo. Desta vez, está em jogo a aquisição de um frigorífico no Rio de Janeiro.
Depois de comprar no final de julho do ano passado sete unidades da rede da família Zouain (sendo seis em Guarapari e uma em Anchieta); em agosto, adquirir quatro lojas da Rede Smart, também na Cidade Saúde; e entre setembro e outubro de 2019 fechar negócios com uma fábrica de laticínios em Colatina, dona das marcas Quero Quero e Melissa; agora, Creso Suerdieck passou a ser proprietário do Frigorífico Rioja. Detalhe: a compra aconteceu por meio da razão social do Santo Antônio, J.Zouain, ou seja, além de Creso, a rede tradicional de Guarapari passou a responder pela empresa carioca.
Documento da Receita Federal mostra que J.Zouain e Creso Suerdieck Dourado fazem parte do quadro societário da RiojaCrédito: Receita Federal/Reprodução
A coluna apurou que os proprietários da Rioja, Jorge dos Santos e Denis Russo Moreno Ribeiro, venderam o negócio em novembro. Acontece que nesse mesmo mês, no dia 28 de novembro, a Justiça deu uma liminar para que o fundador do Santo Antônio, o empresário Jorge Zouain, retomasse o supermercado.
A decisão de mudança da gestão de Creso - que no caso do Santo Antônio fez a aquisição por meio da empresa DX Group Participações e Investimentos Eirelli - para o antigo dono aconteceu após a identificação de uma série de problemas nas unidades da rede, como a falta de mercadorias nas lojas e irregularidades em máquinas de cartões de crédito, além da quebra de contrato por parte de Creso, que deixou, por exemplo, de pagar prestações da compra à família Zouain.
A suspensão do contrato entre as partes não foi, entretanto, suficiente para inviabilizar a negociação do empresário da DX Group com Jorge dos Santos e Denis Russo. Tanto é que no dia 29 de novembro foram protocoladas na Junta Comercial do Estado do Rio de Janeiro, a Jucerja, alterações no contrato social da Rioja Indústria e Comércio de Alimentos LTDA.
Capital social da Rioja foi alterado. Os sócios Jorge dos Santos e Denis Russo transferiram suas quotas para a J.Zouain (Supermercado Santo Antônio) e para o empresário Creso SuerdieckCrédito: Jucerja/Reprodução
De acordo com documento da Jucerja, o qual a coluna teve acesso, Jorge dos Santos através da venda do frigorífico cedeu e transferiu 400 mil quotas do capital social da empresa para a J.Zouain & Cia Limitada, e Denis Russo transferiu, também para a J. Zouain, 590 mil quotas. Outras 10 mil quotas foram destinadas a Creso Suerdieck Dourado, totalizando 1 milhão de quotas, que passaram a ser administradas na pessoa do Creso, como mostra a imagem acima.
Apesar das alterações terem sido protocoladas na Jucerja no dia 29 de novembro, a data que consta ao final do documento de alteração da sociedade, onde estão as assinaturas das partes envolvidas, é 22 de novembro. Já o arquivamento na Junta Comercial do Rio de Janeiro é datado de 6 de janeiro deste ano, conforme é possível conferir no quadro ao final da imagem abaixo.
Alterações do contrato social da Rioja foram assinadas pelas partes no dia 22 de novembro, mas a data do protocolo na Jucerja é de 29 de novembro de 2019Crédito: Jucerja/Reprodução
Diante de todos esses fatores, há incertezas se a venda do frigorífico pode vir a ser contestada na Justiça e suspensa. Situação de dúvida parecida existe em relação à compra do Laticínios Colatina realizada em novembro por Creso, conforme a coluna publicou com exclusividade.
O que dizem as empresas
As partes ligadas ao negócio - Supermercado Santo Antônio, Rioja Alimentos e o empresário Creso Suerdieck Dourado - foram procuradas para comentar sobre o contrato de compra e venda do frigorífico e também sobre quais medidas pretendem tomar diante da situação. Mas todos os citados não se manifestaram até a publicação desta coluna.
Carnes distribuídas pelo frigorífico RiojaCrédito: Foto do leitor
DEPOIS DA COMPRA, FRIGORÍFICO DEMITIU 180 PROFISSIONAIS
Logo após adquirir a empresa Rioja Alimentos - que atuava como distribuidora de carnes e contava com a marca Vip Meat -, o empresário Creso Suerdieck Dourado fechou o frigorífico e demitiu cerca de 150 profissionais diretos e aproximadamente 30 representantes comerciais.
Segundo relatos de trabalhadores que atuavam na empresa - que estava no mercado desde 1993 -, os desligamentos aconteceram no início de dezembro e pegou todos de surpresa.
“Quando a nova gestão assumiu, ela veio com o mesmo discurso do que aconteceu aí no Espírito Santo, de que não ia demitir ninguém, mas colocou todos na rua”, lamentou um ex-funcionário que preferiu não se identificar.
Outro profissional que perdeu o emprego e atuava há anos no frigorífico comentou que a empresa não pagou as rescisões trabalhistas, o salário de novembro e o 13º salário de 2019. “Há muitas famílias passando dificuldades”, lamentou.
Por conta dos desligamentos, empregados da Rioja chegaram a fazer em dezembro do ano passado um protesto na frente da empresa e “buzinaço” com os caminhões da firma.
Crédito: Foto do leitor
De acordo com fontes ligadas à Rioja, a empresa vinha passando por dificuldades financeiras e acumula dívidas milionárias junto a fornecedores e bancos. Um dos fornecedores, que pediu o anonimato, contou à coluna que tem R$ 280 mil para receber, mas que desde outubro ninguém do frigorífico faz o acerto de contas. “E não me deram nenhuma perspectiva de quando vão pagar. Sumiram”, disse indignado.
O frigorífico foi procurado pela coluna mas não se manifestou.
Antes de a Justiça determinar que o fundador do Santo Antônio, Jorge Zouain, retomasse a gestão da rede, em 28 de novembro de 2019, o frigorífico Rioja chegou a realizar algumas entregas para o supermercado de Guarapari, conforme relatou uma fonte.
Supermercados Santo Antônio, em GuarapariCrédito: Carlos Alberto Silva
“Entregaram mercadorias para nós e o caminhoneiro no momento do descarregamento dos produtos falou a alguns funcionários que o Creso também tinha comprado o frigorífico (do Rio de Janeiro)”, lembrou ao citar que até então a empresa carioca nunca tinha fornecido carnes para o Santo Antônio.
A Rioja até então limitava a sua atuação ao Rio de Janeiro, mas depois que houve a negociação entre Creso Suerdieck e os antigos proprietários do frigorífico, algumas cargas foram enviadas para unidades do supermercado capixaba. “Foram poucas vezes, mas enviou. Foram uns cinco caminhões e mais nada”, observou um ex-funcionário.
Jornalista de A Gazeta, há mais de 10 anos acompanha a cobertura de Economia. É colunista desde 2018 e traz neste espaço informações e análises sobre a cena econômica