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Comércio exterior

Exportações do ES caem 23% no 1° tri e "culpa" ainda não é da Covid-19

Dados mostram que o comércio exterior capixaba teve resultados piores do que o do país. A coluna traz os números e uma entrevista com o presidente do Sindiex, Marcilio Machado

Publicado em 16 de Abril de 2020 às 14:55

Públicado em 

16 abr 2020 às 14:55
Beatriz Seixas

Colunista

Beatriz Seixas

Navio chega ao Porto de Vitória
Navio chega ao Porto de Vitória Crédito: Vitor Jubini
O comércio exterior capixaba teve um desempenho negativo no primeiro trimestre de 2020 na comparação com igual período de 2019. As exportações pelo Espírito Santo recuaram em 23,7% e as importações apresentaram uma queda  de 6,6% nos três primeiros meses do ano.
Os dados são, inclusive, piores do que os registrados nacionalmente. No mesmo período, as vendas do Brasil para o mercado internacional caíram 3,2% e as compras do exterior tiveram uma alta de 4,3%, segundo dados do Sindicato do Comércio de Exportação e Importação do Espírito Santo  (Sindiex).
O resultado ruim traz uma preocupação ainda maior, já que, segundo o presidente do Sindiex, Marcilio Machado, os números não refletem até o momento os impactos da pandemia do coronavírus.  De acordo com ele, o comportamento da crise causada pela Covid-19 em todo mundo deverá começar a ser sentido a partir do próximo trimestre. Por enquanto, Machado atribui o recuo das exportações  à queda na venda de minério de ferro, um dos principais itens da nossa pauta exportadora,  para países como Estados Unidos, Japão e Argentina. 

-23,7%

Este foi o percentual de queda das exportações do ES no 1º trimestre de 2020 na comparação com o mesmo período de 2019. No Brasil, recuo foi de 3,2%

-6,6%

Esta foi a retração das importações feitas pelo ES nos três primeiros meses de 2020 na comparação com igual período de 2019. No Brasil, houve alta de 4,3% no mesmo período
Entre os principais produtos exportados pelo Espírito Santo, os que tiveram maior recuo foram minério de ferro (-49%),  petróleo (-49%), aço (-13%) e rochas ornamentais (-13%). Já a celulose apresentou um desempenho melhor, com alta de 34% de janeiro a março, demonstrando a reação desse setor. Entre as importações, o destaque ficou com as aeronaves, que tiveram alta de 100%, e os veículos, com avanço de 807% no período. Na outra ponta, houve retração de 62% na importação de carvão. 
Para Marcilio Machado, os dados deste trimestre trazem um retrato de negociações que foram feitas há cerca de seis meses, quando ainda havia incertezas diante da guerra comercial entre Estados Unidos e China e não existia a pandemia do coronavírus. "Houve um acordo, no último trimestre no ano passado, mas os reflexos desse acordo, que a gente acreditava que teria uma melhora no comércio global em 2020, não acontecem de uma hora para outra. No comércio exterior, a gente demora um pouco para ver os resultados. Então, as exportações que aconteceram em janeiro, fevereiro e março no Espírito Santo foram provavelmente decorrentes de acordos de vendas que foram feitos meses atrás." 

Principais produtos exportados pelo ES

• MINÉRIO DE FERRO: US$ 327 milhões / 22%  de participação / -49% variação 20/19

• PETRÓLEO: US$ 163 milhões / 11% de participação / -49% variação 20/19

• SEMIMANUFATURADOS DE FERRO/AÇO: US$ 157 milhões / 11% de participação / -13% variação  20/19

• CELULOSE: US$ 142 milhões / 10% de participação / +34% variação 20/19

• MÁRMORES/GRANITOS E OUTRAS (MANUFATURADOS): US$ 136 milhões / 9% de participação / -13% variação 20/19

• CAFÉ EM GRÃO: US$ 101 milhões / 7% de participação / -8% variação 20/19

1º Trimestre

Principais produtos importados pelo ES

• AERONAVES: US$ 202 milhões / 15% de participação / + 100% variação 20/19

• AUTOMÓVEIS: US$ 123 milhões / 9% de participação / + 22% variação 20/19

• CARVÃO MINERAL: US$ 112 milhões / 9% de participação / -62% variação 20/19

• APARELHO ELÉTRICO PARA TELEFONIA: US$ 89 milhões / 7% de participação / -21% variação 20/19

• VEÍCULOS DE TRANSPORTE DE MERCADORIAS: US$ 48 milhões / 4% de participação / +807%  variação 20/19

1º Trimestre

BRASIL TERÁ OPORTUNIDADE DE DERRUBAR BARREIRAS PARA MELHORAR A PRODUTIVIDADE

A coluna conversou com Marcílio Machado também sobre o que o segmento do comércio exterior espera para os próximos meses, como os empresários estão vendo essa crise e os impactos que ela terá para a atividade econômica. Além disso, o presidente do Sindiex ponderou que este pode ser o momento para o Brasil avançar sobre questões que há anos são necessárias e urgentes para ajudar o comércio exterior nacional a ter mais competitividade no mundo global. 
"Eu acredito que o comércio exterior daqui para frente nunca mais vai trabalhar com tanta barreira, com tanta burocracia, com tanta inércia, principalmente de envolvimento de órgãos governamentais", pontuou Machado. Confira a entrevista:
Marcilio Machado é presidente do Sindiex Crédito: C2/Divulgação

O primeiro trimestre apresentou queda de 23,7% nas exportações feitas pelo ES. Essa redução já é reflexo da pandemia do coronavírus?

Eu acredito que não. Se houve algum impacto (do coronavírus) no primeiro trimestre foi muito pequeno. A queda das exportações deve ter ocorrido principalmente por conta do minério, que é o principal produto exportado pelo Espírito Santo. Se a gente olhar, a oferta de minério da Vale diminuiu no ano de 2019 e isso deve ter afetado as exportações para 2020 no total. Porque teve o problema de Brumadinho, tiveram alguns problemas operacionais com a Vale. Houve uma redução de oferta. Então, na hora que existe uma redução de oferta e cai no total de uma certa forma a oferta de minério no mercado internacional, isso afeta o Espírito Santo.

Então, esse dado negativo é mais um reflexo do cenário que tínhamos meses antes da pandemia.

Na verdade, em 2018, o comércio global cresceu 3% e, em 2019, o crescimento foi de 1,5%, o mais baixo em 10 anos. De 2017 a 2019 houve uma tensão muito grande por causa da guerra comercial entre os EUA e a China, que são as duas maiores economias do mundo. Houve um acordo, no último trimestre no ano passado, mas os reflexos desse acordo, que a gente acreditava que teria uma melhora no comércio global em 2020, não acontecem de uma hora para outra. No comércio exterior, a gente demora um pouco para ver os resultados. Então, as exportações que aconteceram em janeiro, fevereiro e março no Espírito Santo foram provavelmente decorrentes de acordos de vendas que foram feitos há cinco, a seis meses atrás.

Ao mesmo tempo, as operações de exportação para a China, que é um dos principais destinos dos produtos do ES, se mantiveram estáveis. Por que essa diferença de resultados entre a queda geral e a estabilidade na China?

Houve no primeiro trimestre um aumento muito grande nas exportações, principalmente de minério, que é o principal produto da nossa pauta para China. As exportações saíram de US$ 16 milhões, em 2019, para US$ 67 milhões, em 2020, um crescimento de 307%. Aí você pode me perguntar, mas como que com um crescimento de 307% do produto mais importante a gente teve queda de 23% nas exportações gerais? Porque cresceu muito na China, mas as exportações de minério para países como Japão, EUA e Argentina caíram. No Japão, as exportações caíram de US$ 91 milhões, em 2019, para US$ 49 milhões, em 2020, ou seja, queda de 55%. Para os EUA, exportamos no primeiro trimestre do ano passado US$ 71 milhões, em 2020, caiu para US$ 44 milhões, redução de 40%. Para Argentina, a queda foi de US$ 73 milhões para US$ 43 milhões. Então, o que a gente entende é que houve uma concentração de exportações de minério para China e uma queda para outros países importantes. O aumento das exportações para a China não foi suficiente para compensar a grande queda de exportações, em volume de dólares, para Japão, EUA e Argentina.

Acredita que o impacto no comércio exterior virá de forma mais acentuada daqui para frente?

Acredito que esses reflexos vão ser sentidos principalmente a partir do segundo trimestre deste ano, do terceiro ou quarto trimestre. Porque muito pedidos de compras poderão ser cancelados. Nas importações nós percebemos com nossos clientes que alguns até quiseram cancelar pedidos, inclusive em função da desvalorização do real em relação ao dólar. Os produtos vão chegar mais caros no Brasil e, com a retração da demanda e a perspectiva de recessão, os empresários estão com medo de fazer importação porque não sabem se vão poder repassar os custos da variação cambial para o consumidor final. Outra coisa que aconteceu é que alguns exportadores relataram que tiveram dificuldade de entregar pedidos em alguns portos chineses devido ao coronavírus. Inicialmente estava todo mundo com receio, mas o problema foi se dissipando. Alguns até falaram que tinha falta de contêiner. Essa situação só não atrapalhou tanto porque felizmente muitas operações nos portos são automatizadas. Então, o impacto que a gente deve ter provavelmente vai ser maior no 3º e no 4º trimestre deste ano.

Entre as importações do ES, um dado chama a atenção, que é o crescimento de mais de 800% no item veículos de transporte de mercadorias. Do que se trata?

Com relação às importações do Espírito Santo, houve um aumento de importações de automóveis e aeronaves. Houve uma continuidade nessa tendência no ano de 2019. O comércio exterior, principalmente para importações de grandes volumes, vive muito em função de nicho de mercado. Esse foi um nicho de mercado que teve demanda muito grande e as empresas comerciais importadoras e exportadores souberam explorar muito bem devido aos fatores competitivos do Espírito Santo, como logística, profissionais com muito conhecimento, interação muito grande entre empresas comerciais importadoras e exportadoras e as instituições financeiras, enfim, uma expertise que vem desde a década de 90, quando o Espírito Santo foi, com muito sucesso, pioneiro na importação de automóveis. Então, toda vez que descobre uma oportunidade de mercado a ser explorada nesse setor de transporte, os profissionais do Espírito Santo estão mais gabaritados pela experiência que tiveram, na década de 90, quando chegavam aproximadamente 1.000 automóveis por dia através dos portos do Espírito Santo.
"O conhecimento e a experiência de lidar com esse tipo de produto fez com que o Espírito Santo se sobressaísse em relação a outros Estados brasileiros"
Marcilio Machado - Presidente do Sindiex

Como o comércio exterior está lidando com os reflexos da pandemia do coronavírus, que devem ser sentidos de forma mais aguda nos próximos meses?

Gerenciar em tempos de turbulência é muito difícil. Nós temos que ser bastante realistas. Atacar o problema com seriedade. Acho que o governo brasileiro está sabendo fazer isso ao procurar minimizar o impacto em cima das empresas pequenas, dos empresários que fizeram opção pelo Simples, dos autônomos, dos profissionais liberais. Por outro lado, a gente não pode deixar, como bom administrador, de pensar no amanhã. Resolver o problema de hoje, atacar o problema de hoje e pensar no amanhã. O comércio internacional, no passado, ele dependia muito de transporte, viagens, feiras e contatos pessoais. Nos últimos tempos, a gente já vem trabalhando muito através de conferência virtual, através da comunicação por meio de tecnologias e, agora, a gente está usando mais e mais o home office. Com isso tudo, o Sindiex, junto com empresários de outros setores, está trabalhando muito para reduzir a burocracia.

Quais principalmente?

Existem muito documentos desnecessários no comércio exterior. Então, nós fizemos muitos pleitos aos órgãos intervenientes, aos órgãos anuentes para que aceitassem, por exemplo, documentos digitais, documentos escaneados, para reduzir a presença física e o impacto do contato humano que pudesse de uma certa forma causar dano à saúde das pessoas envolvidas. Então, a crise nos deu a oportunidade de ter mais transparência dos processos desnecessários que precisam ser abandonados, tanto pelas vias reguladoras do comércio exterior e quanto por todas as entidades envolvidas. E a gente, de certa forma, teve boa aceitação nesse sentido porque uma vez que a gente tem que ter o distanciamento social, os órgãos envolvidos perceberam que poderiam mudar processos. Isso significa aceitar uma modernização, uma facilitação do comércio exterior que era demandada há muito tempo. Os custos de transação, os custos que envolvem a atividades humanas e o contato humano eram muito maiores no Brasil do que no resto do mundo. Então, essa crise fez com que a gente demandasse mais e eu acredito que o comércio exterior daqui para frente nunca mais vai trabalhar com tanta barreira, com tanta burocracia, com tanta inércia, principalmente de envolvimento de órgãos governamentais. 
"Daqui para frente, a gente vai continuar tendo que lutar para que algumas conquistas que a gente já conseguiu obter por causa da crise, como a redução da burocracia, sejam preservadas"
Marcilio Machado - Presidente do Sindiex

O que essas conquistas podem representar?

A gente vai ter que ter muito mais agilidade para retomar o comércio exterior. Porque quando a gente faz demanda para reduzir burocracia, papel, assinatura, reconhecimento de firma, presença física do empresário em vários lugares e outras coisas, nós estamos trabalhando para aumentar a produtividade do Brasil. Porque o maior problema do Brasil é produtividade. No comércio exterior, nós somos apenas o 27º maior exportador do mundo porque a nossa produtividade é inferior a de outros países. Então, a gente precisa modernizar e abandonar aquilo que não precisa ser feito. Abandonar aquilo que é desnecessário, e essas foram muitas das solicitações feitas pelo Sindiex. Outro aspecto interessante é considerar o seguinte: o que vai acontecer depois? Porque essa crise toda tem o aspecto psicológico. Se as pessoas acharem que essa crise veio para ficar, que vai durar um ano, dois anos, três anos, mesmo que não dure, a recuperação vai ser mais demorada. Então, da maneira como a gente enfrenta as dificuldades, com que tipo de realidade a gente lida com os problemas, e como que a gente acredita que eles vão ser resolvidos, isso vai implicar de que maneira, mais rápida ou menos rápida que o comércio exterior vai ser retomado.

Acredita que vai haver demissões no setor?

Nós tivemos algumas reuniões e nelas eu não vi nenhum diretor nem de empresa pequena, média ou grande falando que vai demitir pessoal. Eu acho que está muito claro e consciente dentro da cabeça dos empresários que o ativo mais importante que existe nas empresas são as pessoas. O nosso trabalho é muito voltado para o conhecimento. E eu tenho certeza que, como eu, os outros empresários sabem que os ativos mais importantes são as pessoas e as pessoas têm que ser preservadas. Acredito que só vai haver demissão mesmo em caso de última necessidade. Porque treinar pessoas para desenvolver um trabalho, conhecer o setor, ser produtivo e apresentar resultado tem um custo muito grande. Nós não estamos querendo ter esse risco de perder pessoas e aumentar o custo nesse momento, embora a receita vai ficar um pouco comprometida nos próximos meses. Mas acho que, por enquanto, ninguém está sendo pessimista para mandar gente embora. O que a gente vai precisar realmente é reduzir o custo Brasil, fazer as reformas que precisam ser feitas, a administrativa, a tributária e principalmente renovar a maioria dos processos envolvidos no comércio exterior. O governo já começou com o plano de fazer isso, cada organismo vai ter que apresentar um método, um processo, uma maneira para poder simplificar e dar mais liberdade econômica. 
"Nós precisamos de mais liberdade econômica para inovar, empreender e manter as pessoas no trabalho"
Marcilio Machado - Presidente do Sindiex

Beatriz Seixas

Jornalista de A Gazeta, há mais de 10 anos acompanha a cobertura de Economia. É colunista desde 2018 e traz neste espaço informações e análises sobre a cena econômica

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