A piada é pronta, mas não tem graça. Uma comissão para discutir direito das mulheres formada integralmente por homens? Isso aconteceu na câmara municipal de São Paulo. A foto com os sete vereadores virou meme. Mas é para rir ou para chorar?
Faltou tudo na foto: mulheres, bom senso, brio, respeito, consciência, elegância e, principalmente, conceitos de boa política. A começar por não ter ninguém para impedir essa vergonha alheia, que comunica muito a situação das mulheres na política e fora dela. Como assim não surgiu um assessor, uma vereadora, para avisar que comissão de direitos da mulher só com homens pega mal?!
Lá estavam os sete sorridentes, abraçados na foto, inconscientes do meme. Sem sequer um amigo para avisar da alface no dente, do zíper aberto, do chiclete grudado no cabelo, da camisa abotoada errada, enfim, ninguém antecipou-se para impedir o vexame, que seria pequeno, não fossem todas as questões que essa foto pode e deve levantar sobre representatividade das mulheres.
Talvez uma boa pergunta seja: por que as mulheres, que são a maioria do eleitorado brasileiro, ocupam cerca de apenas 18% dos cargos políticos eletivos? Afinal, o que não falta é mulher eleitora.
Quando a desigualdade é muito grande, é bom que exista pelo menos um mês para lançar luz nos principais problemas das mulheres no Brasil. Este mês, eu aceitei todos os convites para participar de podcasts, rodas de conversa, e outros eventos com reflexões sobre questões femininas. Acho importante estar presente.
Estava em dúvida entre escrever sobre o meme político ou os flagrantes de assédio cometidos pelo robô humanóide ou pelo humano real no elevador, mas não quero dar palco para esses bundões aqui. Resolvi que gostaria mesmo é de encher de esperança o coração das mulheres e dos homens feministas, ainda raros mas em expansão.
A convite da secretaria de educação de Aimorés, onde nasci, fui levar o projeto Abraço Literário para uma roda de conversa com professores e gestores de projetos sociais. Que experiência boa.
A cidade mineira, com menos de 30 mil habitantes, encravada em uma região famosa por feminicídios, está se reiventando pelas mãos de mulheres – e homens – que querem transformar o futuro ampliando os espaços de representatividade das mulheres.
Foram muitos os projetos que conheci. Em vários me reconheci. As vozes embargadas falando da luta, às vezes solitária, de mulheres líderes ainda ressoam em mim.
A princípio tudo parece pequeno, mas existe um movimento poderoso para que uma rede de apoio feminina seja construída com a paciência, determinação e coragem – que é o outro nome do amor.
Não acredito que aquelas mulheres, que experimentaram fazer narrativas com lágrimas de alegria, possam retroceder à condição de silenciadas. Elas aprenderam a gostar do som da própria voz ao descrever sonhos e realizações, ao invés de queixas e lamúrias. Essas minas não se calarão.