Esqueci a senha do cartão de crédito. A cara assustada do entregador do supermercado denunciava o catavento girando na minha testa. Tentei abrir as gavetas da memória. Nada. Travei. Nem minha memória corporal funcionou, meus dedos não sabiam o caminho. Tive que buscar a senha fora de mim.
Um pequeno contratempo na correria do dia a dia poderia ser apenas jogado na lixeira das irrelevâncias, mas algo me fez parar e procurar o significado mais amplo daquela perda repentina de memória.
Fui reler meus escritos, buscar nas minhas palavras uma pista. Antes porém, uma frase do escritor Rubem Alves cruzou o meu pensamento: “É necessário aprender a arte de abrir mão – a fim de nos dedicarmos àquilo que é essencial”.
Escolher dói. Não escolher paralisa. É um golpe duro no ego realizar que não daremos conta de tudo. As abas abertas da nossa mente são uma forma engenhosa de manter a ilusão que tudo está sob o nosso controle.
Abrir mão dessa onipotência corrosiva destrava as janelas da mente, ventila a existência. As escolhas dos outros não nos pertencem.
Não somos avalistas dos equívocos alheios. Só podemos nos responsabilizar pelas nossas opções, e isso exige uma morte simbólica para tudo aquilo que nos retira vida, tudo que aniquila e entorpece nossa capacidade de desejar.
A ausência de desejo é o que nos torna permeáveis aos discursos mortíferos, inclusive nosso discurso interno. Mas já fomos muito torturados por palavras duras. Como diria Caetano Veloso, daqui pra frente, outras palavras.
Um amigo desleal não fará falta, podemos fechar essa aba. Um sócio trambiqueiro também não. Mitômanos, conflituosos, obscurantistas, invejosos e ingratos são abas que nos impedem de processar a vida com leveza. Podemos fechar todas e limpar o histórico.
As relações tóxicas carregam o visgo da pretensão de que podemos salvar o outro. Não podemos, apesar da ideia ser sedutora. Cuidar, orientar dentro dos nossos limites, alertar, argumentar e acender uma luz nas sombras são papéis possíveis de se exercer, mas escolhas são intransferíveis.
Nosso maior poder é o que exercemos da pele para dentro. Retirar das nossas perdas os achados, para compor o mosaico da vida, é ensinar aos que amamos a fazer a alquimia da dor. A via do amor é uma escolha.
Transformar a vida em fluidez exige presença. A humildade de refletir sobre o que pode nos ensinar uma pandemia e todas as suas perdas, ou um lapso de memória, é uma atitude de autoamor. Expandir a nossa consciência nos responsabiliza conosco. Não seremos salvos por ninguém e não salvaremos ninguém.
Acolher a dolorosa perda desse delírio de poder, olhar com generosidade para a nossa insignificância em relação ao destino do outro e nos perdoar por sermos demasiadamente humanos, são escolhas que destravam a vida.