Eu gosto de ser uma pessoa emocionada. Valorizo pequenos momentos de maravilhamento que formam uma espécie de banco de alegria. Quando tudo ao redor fica feio e rude, consigo resgatar um desses instantes mágicos e, voilà, capturo um ponto de felicidade. É uma espécie de relação amorosa comigo. A sensibilidade cobra um preço alto, mas tem valor inestimável em contrapartida.
Temos os nossos dias de céu cinzento, de tempestades violentas, é preciso saber contemplar um céu azul. Uma Terra azul. Um bom lugar para chamar de lar. O ponto exato para onde você queira voltar quando partir.
Achei poético assistir à descida da cápsula que trouxe do espaço os astronautas Suni Williams e Butch Wilmore depois de uma missão que deveria durar oito dias, mas se estendeu por nove meses. Em tempos de más notícias, é bom ficar atento às boas. Sim, pode parecer que não, mas elas existem.
Assistir ao balé aéreo dos paraquedas no cenário da mescla de azuis do céu e do mar na chegada dos astronautas é uma delas. Imediatamente, capturei o momento para investir no meu banco de alegria, essa emoção sofisticada, mais valiosa que metais e papel-moeda. Emoção gratuita, muitíssimo acessível, mas até a gente descobrir isso é um bate-cabeça doloroso.
Observar a linha do horizonte durante a descida da cápsula renovou minha esperança de que ainda somos capazes de reverter os danos ao planeta e à humanidade. Quem vê com o coração confia em grandes mudanças. Tudo é possível diante do mistério que nos envolve, como poeira cósmica que somos. Ou melhor, dito poeticamente como um cientista é capaz de dizer: “Somos feitos de estrelas”. Um gênio, Carl Sagan. Hoje, sabemos (sabemos, né?) que ele estava certo. Como Caetano Veloso também estava. Gente é para brilhar.
No meu atual grau de paixão pelo nosso planeta, lembrar de Caetano ao escrever esta crônica traz à memória a música "Terra”
“Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?”
Somos seres curiosos. Explorar possibilidades é da natureza humana, mas dentro do colo de uma mãe-Terra linda, acolhedora, com uma lua que inspira, apaixona, enfeita, faz evolução e revolução com nossas águas, por que a obsessão por Marte? Imagine esses bilhões investidos na reversão dos danos à Terra.
Nossa lua tem dois nomes, podemos escolher entre Luna ou Selene, ambos com significados relacionados à luz. Marte tem duas luas. Uma é Deimos, que significa pânico, e a outra é Phobos, que significa medo. Essa última, em alguns milhões de anos, vai colidir ou se separar do planeta vermelho que, para quem ainda não sabe, na mitologia é o deus da guerra. O universo é bem explícito. Faz-se de desentendido quem quer.
Não precisamos de bioengenharia para criar novas espécies mais adaptadas a Marte, nem sóis artificiais. Urgente, mas urgente mesmo, é restabelecer a sensação de pertencimento ao planeta incrível que habitamos.
Somos mais de oito bilhões de pessoas. Em Marte, muito menor que a Terra e, até o momento, inviável para a vida humana, caberia um milhão de pessoas. Haja guerra para fazer esta conta fechar.
Pode ser utópico, mas eu gosto de imaginar que os viajantes das estrelas são pessoas que inspiram novas percepções de mundo. Podemos ver através dos olhos deles. “A Terra é azul” é mais que uma frase do cosmonauta russo Yuri Gagarin, após ter se tornado o primeiro ser humano a ver a Terra do espaço, é um momento de assombro que inspirou a humanidade.
Assistir terráqueos voltarem para casa é um momentum. Filosoficamente, um instante que pode transformar o mundo. Misteriosamente.