Há anos meu café é sem açúcar. Na casa da minha mãe, que é mineira raiz, o café é coado com água já adoçada, exceto quando estou por lá. A primeira providência dela quando chego é pedir para fazerem um café forte e sem açúcar, como eu gosto. Meu pai implicava com isso. Sempre sugeria que fizessem duas garrafas de café, uma com e outra sem o danado do açúcar, mas ela nunca cedeu. Coisas de mãe. Demorei para entender essa declaração de amor a mim, uma atitude que impediu que eu me sentisse estrangeira na casa onde nasci.
Não é sempre que estamos atentos aos pequenos gestos que demonstram muito amor. Andamos apressados pela vida como se isso pudesse multiplicar nossos dias e perdemos esses detalhes que enfeitam nosso caminho. Evitamos nos emocionar fantasiando uma mudança no nosso destino final, apesar de, teoricamente, sabermos que tudo o que temos de real é o trajeto que optamos fazer.
O destino final está posto. Esse não muda. Ele independe das máscaras que usamos para dormir ou para nos colorir. Essa é a fantasia que um dia terá seu choque de realidade em uma quarta-feira de cinzas qualquer. A correria que atropela os nossos afetos mais caros é a mesma que encurta nossos dias, fazendo o tempo voar em um céu sem Sol nem Lua.
Dormir a viagem inteira é uma opção. Mas estar desperto para curtir a paisagem é vida. Como disse Guimarães Rosa, “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.
O grande dia pode ser hoje, uma sexta-feira comum. O momento inesquecível pode ser aquele que passou batido por nós. O universo é imprevisível, bem-humorado e criativo. Uma mistura de café com leite, aparentemente banal e enfadonha, tem 50 tons de cinza. Ou de marrom, mas metáforas e fantasias são soberanas diante de regras e perfeccionismo.
Toda realidade é insuportável para quem não se considera capaz de mudá-la. E mudar realidades pode demorar anos. Às vezes, você precisa sair de si para entender isso. Mas primeiro você precisa saber de si, estar em si, no seu lugar, nomear os seus lugares para decidir o seu movimento. Como em um jogo de xadrez.
Bons afetos são forças que nos integram à natureza de expansão que somos. Eles querem nossa atenção porque são adubo de vida. Viver é praticar a ecologia dos afetos. Todo o resto, mesmo sob disfarce, é morte.
Nesse carnaval, fui visitar minha mãe. No domingo, ela quis comer frango caipira com caldo e falou isso quase na hora do almoço. Corre pra lá e corre pra cá, eu e minha irmã demos um jeito. Eu não sou fã de frango ensopado. Mas comi e repeti, com olhos de sorriso para ela.
Já estava quase dormindo quando comecei a pensar em quaresma, quaresmeiras, flores, demonstrações de amor etc e tal. Dormi de conchinha com minha alma quando me dei conta de que meu coração - sem interferência da minha mente - decidiu antecipar uma quaresma mais afetuosa.