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Sextas Crônicas

Humanidade? Tem, mas acabou

Existem palavras que fazem caber um mundo em si. É esse também o caso de "humanidade", que vem sofrendo um esfacelamento severo, diante de ações perversas virtuais e reais

Publicado em 24 de Janeiro de 2025 às 02:00

Públicado em 

24 jan 2025 às 02:00
Aurê Aguiar

Colunista

Aurê Aguiar

Não gosto de promessas, prefiro boas surpresas. Desde o discurso inaugural das redes sociais e o crescimento rápido da cultura das startups, algumas palavras foram ditas à exaustão. Dor e promessa são duas delas. Palavras antes carregadas de significado sucumbiram à banalidade, vítimas de um desgaste inevitável e contextualização equivocada. Se esvaziaram de essência — tadinha dessa palavra também, sofrida demais, atualmente.
Fazer uma palavra perder o sentido é uma maneira insidiosa de desarmá-la. Quando uma palavra perde seu significado, não apenas apaga sua carga semântica. É como se ela fosse se esvaindo como fumaça e esquecendo do seu léxico. Isso aconteceu com palavras como liberdade, expressão e mentira, que perderam sua força misturadas ao termo fake news*. São palavras em processo de demência, candidatas a um mal de Alzheimer verbal. Perderam a mão de si, nem sequer lembram para o que nasceram. Vou evitar citar o amor, porque escrever sobre a perda de sentido dessa palavra daria uma nova crônica.
Existem palavras que fazem caber um mundo em si. É esse também o caso de "humanidade", que vem sofrendo um esfacelamento severo, diante de ações perversas virtuais e reais.
Humanidade é uma palavra polissêmica, tem vários significados. É substantivo feminino de origem latina e pode significar o conjunto de seres humanos, a condição e natureza do ser humano e também civilidade.
A humanidade, nós, o conjunto de seres, foi construída ao longo do tempo através de histórias compartilhadas e experiências comuns. A barbarização da linguagem dilui e subverte esse entendimento.
Palavra é laço, não é fio ao acaso. Quando, no lugar da conversa, predominam os slogans e, na busca pela aproximação, a apatia, as palavras tornam-se apenas objetos de troca, ecos fragmentados de um significado que se evaporou. Sem significado, são prescindíveis. Esse é o reino apenas da imagem.
Imagens como a de Melania Trump, na posse do marido, com seu pesado mantô azul-noite e um chapéu boater, ou chapéu de barqueiro, que podem remeter a uma sisudez severa. Podem comunicar distanciamento e frieza, ou nos fazer relembrar do personagem principal do filme "O Máscara", de 1994, inspirado em quadrinhos de terror, em que o personagem principal, um pacato cidadão, ganhava superpoderes — usados mais para o mal, é claro — ao colocar em si uma máscara que o transformava em uma espécie de avatar, exatamente como aconteceria logo depois nas redes sociais.
Melania Trump na posse
Barron Trump e a primeira-dama Melania Trump durante discurso do presidente Donald Trump na posse Crédito: Reuters/Folhapress
Mas a imagem contida da primeira-dama americana ainda pode remeter ao banqueiro Shylock, da peça de Willian Shakeaspere “ O Mercador de Veneza”, que fazia acordos de empréstimos, mas queria literalmente um pedaço da carne do sujeito.
Imagens são rapidamente decodificadas por nós, humanos, e banalizar e confundir a linguagem com o uso dúbio delas jamais será acaso.
Símbolos, projetados para uma comunicação viral, têm a intenção de sobrepor a imagem às palavras, semear confusão e euforia e, assim, movimentar mercados que dependem da própria ausência de entendimento.
Mas será que o mundo de emoções etiquetadas em rede é viável para o futuro da humanidade? Podemos transformar a complexidade das emoções humanas em "likes"? Uma confissão pode ser encapsulada em um tweet e o amor reduzido a um emoji? Ou será que despersonalizar a palavra desumaniza?
São muitas as perguntas que provocam angústia e, ironicamente, elas são espasmos de novas dores trazidas por promessas de ampliar conexões, privilegiar pluralidades e incentivar comunidades. Não era amor, era cilada.
A história é clara quanto aos delírios tirânicos e a condescendência com eles. Essa miragem de esfacelamento do lastro com palavras caras à humanidade não é mais um meme de mau gosto apenas.
O colapso da significância pode transformar o mundo em um amontoado de relações rasas e repertórios restritos. Resgatar vozes com lastro na sinceridade de intenções com a humanidade talvez não seja mesmo fácil, em um momento em que é cool ser intocável, indiferente, impessoal, impassível, inatingível. Eu, particularmente, acho tudo isso muito brega. Se tem algo que eu amo é ser humana raiz.
*Confesso um certo ressentimento com o bom jornalismo brasileiro por endossar essa falcatruagem.

Aurê Aguiar

É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

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