*Eduardo Borges
Vitória frequentemente ostenta o título de “cidade inteligente”, mas, para quem estuda o fenômeno urbano, a inteligência da capital capixaba possui um ponto cego crítico: a ausência de uma estrutura dedicada exclusivamente à engenharia e fiscalização de trânsito.
O modelo atual, que delega o tráfego a uma Guarda Municipal híbrida e a um Centro de Controle Operacional (CCO) de videomonitoramento policial, é tecnicamente falho e insuficiente para as demandas de uma metrópole insular.
O modelo de Vitória se pauta em monitorar e não em gerir. O CCO de Vitória é, em essência, uma ferramenta de segurança. O foco no “Cercamento Eletrônico” é eficaz para reduzir a criminalidade, mas o trânsito é tratado como um subproduto.
Sem agentes de trânsito de carreira, focados exclusivamente em fluidez e educação viária, a cidade perde a capacidade de resposta técnica. A Guarda Municipal, por mais qualificada que seja, divide-se entre o combate ao crime e o ordenamento urbano, o que significa relegar o trânsito a uma função reativa — o agente só aparece se houver um acidente ou infração grave.
Enquanto Vitória dilui suas competências, as outras capitais do Sudeste mantêm estruturas especializadas que servem de referência.
1. São Paulo (CET-SP): A Inteligência da Carreira.
O maior trunfo paulistano não é o tamanho do orçamento, mas a existência de um corpo técnico de engenheiros de tráfego residentes. Eles realizam microsimulações de fluxo e contagens volumétricas constantes, permitindo que a cidade opere acima de sua capacidade física. O trânsito lá é uma ciência exata, não um anexo da segurança.
2. Rio de Janeiro (CET-Rio e COR): A Operação em Tempo Real.
3. Belo Horizonte (BHTrans): A Gestão de Conflitos.
A capital mineira, apesar de enfrentar gargalos geográficos, possui técnicos especializados em logística urbana. A BHTrans foca no planejamento do impacto de vizinhança e no transporte público como prioridade, separando claramente quem cuida do crime (Guarda) de quem cuida do fluxo (Agentes de Transporte e Trânsito).
Para Vitória avançar, a tecnologia de câmeras precisa ser alimentada por inteligência de tráfego própria. Isso exige a criação de uma carreira de Agente de Trânsito — profissionais cujo KPI não seja a prisão, mas a fluidez — e um corpo de engenheiros civis especializados em mobilidade urbana (“engenheiros de tráfego”) dentro da gestão municipal.
Sem essa especialização, Vitória continuará “enxergando” o trânsito através de suas telas, mas sem as mãos técnicas necessárias para consertá-lo. A gestão de trânsito não é um caso de polícia; é um desafio de engenharia, logística e urbanismo.
*Eduardo Borges é diretor do Sinduscon-ES, engenheiro civil e mestre em Urbanismo