Neste 9 de setembro de 2021, a cidade de Vitória comemora seus 470 anos e um dia. Data a ser celebrada para muito além dos inquestionáveis atributos dessa cidade que já encantou e encanta tantos quantos a conhecem e nela vivem. Encantos que já inspiraram poetas, trovadores, compositores e artistas a expressarem sua admiração nas mais diversas formas de arte e de literatura.
Se as belezas da cidade são singulares e a diferenciam de outras na maneira como sua paisagem natural e seus elementos construídos ao longo da história se inter-relacionam, a forma como ela se organiza social e economicamente a iguala, e muito, ao que se constata em grande parte das cidades brasileiras. O seu tecido social ressalta o abismo que existe entre a grande parcela de excluídos por falta de alternativas e oportunidades e aquela parte da população que se exclui da cidade por opção.
Excluídos são aqueles a quem o acesso a serviços básicos – como habitação, saneamento, transporte, por exemplo ; e a direitos fundamentais – como saúde, educação, lazer, cultura, entre outros, é precário e muitas vezes inexistente. Serviços que estão fora do radar dos interesses do chamado mercado e direitos negados por políticas públicas nos três níveis de poder.
Em contraposição, existem aqueles a quem é dada, por um lado, prioridade no provimento de serviços básicos - seja através de financiamento, seja através de investimentos públicos. Por outro, têm acesso a serviços de saúde, educação, lazer e cultura através de privilégios de renda, fiscais e políticos construídos ao longo da história.
Para os excluídos, a cidade enquanto forma de interação e convivência inexiste pois grande parte do que ela oferece é distante de sua realidade econômica, social e política. Para os que se excluem, a cidade carece de importância pois as possibilidades de convívio social e de interação cultural que ela oferece causa insegurança a quem tem privilégios.
Daí o afastamento em modelos habitacionais onde o convívio em condomínios só se dá entre iguais; em automóveis vistos como símbolos de poder e de diferenciação; em escolas, atendimentos de saúde e instalações de lazer onde o risco de estar com diferentes é minimizado.
Triste Vitória que se conforma com os excluídos como se eles fossem culpados pelas condições sofríveis de vida que têm e pela quase total falta de oportunidades para escaparem do ciclo vicioso da exclusão – filhos de excluídos, excluídos serão. Ciclo vicioso que só será quebrado com políticas compensatórias voltadas para o resgate de dívidas sociais históricas.
Triste Vitória que continua praticando políticas públicas de privilégios a investimentos imobiliários que criam barreiras à interação social; que aumentam as possibilidades de transformação de espaços de uso tradicionalmente coletivos – como as praias, em áreas privatizadas para o uso de poucos.
Diante dessas tristes constatações, duas forma de pensar e agir. A primeira, conservadora, sai pela tangente com o confortável e cínico ‘sempre foi assim’. A segunda, contestadora, constata que a acumulação de equívocos históricos pode e deve instigar o buscar outros caminhos para o presente e para o futuro.
Ao "sempre foi assim" que resulta em distopias, podem ser buscados caminhares novos rumo à utopia que instiga pensamentos, palavras e ações voltadas para um outro mundo possível e melhor para todos, inclusive para os que se excluem.