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Meio ambiente

Sagrado direito ao futuro aplicado ao caso capixaba

A depredação da vida em terra e nas águas — principalmente da forma crescentemente acelerada como vem ocorrendo nas últimas décadas — subtrai de forma quase irreversível direitos de gerações futuras

Publicado em 11 de Janeiro de 2024 às 01:20

Públicado em 

11 jan 2024 às 01:20
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

Volta à cena política mundial — ainda que de forma pouco visível a muitos em função da prioridade que o noticiário dá a guerras — o debate sobre o direito de animais e plantas. O estranhamento de muitos à própria ideia da discussão parece infundada pois a maioria segue religiões que se fundam em uma divindade que tudo criou. Ou seja, além dos humanos foram também criados todos os demais seres viventes que assim devem merecer tratamento semelhante ao professado para humanos.
Se olhados por uma perspectiva histórica, o que pode ser observado é que a falta de cuidado para com os viventes, além dos humanos, vem diminuindo de boa parte da humanidade o direito a futuro. A depredação da vida em terra e nas águas — principalmente da forma crescentemente acelerada como vem ocorrendo nas últimas décadas — subtrai de forma quase irreversível direitos de gerações futuras.
Direito à água em quantidade e qualidade necessárias para todos; direito a alimentos e ar saudáveis; direito, enfim, a patrimônio natural cada vez menos diverso e escasso. Essa perda de direitos vem ocorrendo há muito mas se intensificou e acelerou na chamada era dourada do capitalismo em escala mundial.
Identificada pelo mundo acadêmico como o período entre o pós II Guerra Mundial até os anos 1970, o ciclo de crescimento econômico nele ocorrido foi vendido como de virtuosidade para sempre. Alertas de suas limitações desde os anos 1950 em função da finitute de recursos naturais foram considerados alarmistas e sem fundamentos.
Nesse ciclo, além da recuperação de países devastados pela guerra despontaram também aqueles que procuraram seguir receitas voltadas para a industrialização retardatária. Dentre esses o Brasil que buscou recuperar seu atraso de crescimento baseado em maquinofaturas com programas ousados de construção de indústrias de base e de substituição de importações/diversificação das exportações.
Uma das referências desses programas foi o II Plano de Desenvolvimento Econômico (1975-1979) que teve importantes impactos no processo de recuperação econômica da ‘patinha feia’ do Sudeste industrializado – a economia capixaba. Graças ao II PND o até a década de 1970 ‘Nordeste sem Sudene’ Espírito Santo passou rapidamente a ‘Sudeste com incentivos fiscais’.
Para tanto, graças às bem construídas relações do governo Gerhardt Santos (1971-75), no Espírito Santo se estabeleceram grandes empresas com forte participação de capital estatal. Voltadas para o beneficiamento de minério de ferro e do uso de florestas plantadas na produção de celulose, esses empreendimentos utilizaram janelas de oportunidades na economia mundial abalada pelas chamadas crises do petróleo a partir dos anos 1970.
Uma característica desses empreendimentos tem sido a busca de ganhos de escala (quanto maior a produção maior o lucro por unidade produzida) impulsionados pela aceleração tecnológica voltadas para grandes plantas industriais e maiores quantidades transportadas por ferrovias e por graneleiros.
Os resultados desse crescimento retardatário na forma e conteúdo como ocorreu no Espírito Santo aí estão para quem quiser analisar criticamente. Por um lado, dependência crescente da produção de commodities intensivas em recursos naturais não renováveis e baixo valor agregado.
Sustentabilidade no campo é um dos temas do TecnoAgro
Sustentabilidade Crédito: Infocuspix
Por outro, descaso com patrimônio de todos, principalmente águas doces e salgadas, solo e ar; esgarçamento do tecido social via concentração de renda e falta de políticas públicas minimamente compensatórias. E, importante destacar, aumento de protagonismo político nas mão de poucos, principalmente de empresas multinacionais que veem o Espírito Santo como mero sítio de produção.
Descaso com patrimônio de todos, esgarçamento do tecido social e concentração de poder político que resultam em perdas de direito a futuro para todos hoje por aqui, mas principalmente o das gerações mais jovens. O Espírito Santo, portanto, é prato cheio para a mobilização política de Greta Thunberg e toda uma moçada que precisa ser ouvida e escutada.
Afinal, é dela a maior perda de direito a futuro resultado do descaso que o sistema político e econômico tem para com os direitos de todos os seres viventes.

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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