O crime ambiental cometido pela Samarco/Vale/BHP em 5 de novembro de 2015 resultou em uma tragédia sócio-ambiental-econômica que ainda precisa ser mais bem estudada. Mais de 50 milhões de metros cúbicos de lama de rejeito de minério foram despejados ao longo de toda a Bacia Hidrográfica do Rio Doce.
Foram mais de 600 km percorridos nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo até desembocar na foz do rio Doce, em Regência. Dalí a lama de rejeitos ganhou o oceano e dispersou-se rumo norte e sul por centenas de quilômetros. Dispersão de uma carga de sedimentos sem precedentes, com alto teor de ferro e metais pesados, entre outros compostos orgânicos e inorgânicos.
Tudo em uma região há muito considerada por estudos como prioritária para a conservação da biodiversidade marinha e costeira brasileira. Para além de todos os danos à biodiversidade, o crime ambiental causou irreparáveis prejuízos a comunidades indígenas, quilombolas e pescadores que tiveram seu modo de vida abruptamente transformado.
Inúmeras têm sido as tentativas de compensar de alguma forma os prejuízos causados pela irresponsabilidade das mineradoras. Dentre essas, no Termo de Transacão e Ajustamento de Conduta firmado em 2016 pela Samarco e suas controladoras com os governos federal e de Minas Gerais e Espírito Santo está a criação de uma Unidade de Conservação da Foz do Rio Doce.
Criação proposta há décadas e que se consubstanciou no início deste século XXI com os estudos do Plano de Desenvolvimento Sustentável para as Comunidades do Entorno da Reserva Biológica de Comboios (PDIS-Comboios).
Com a recuperação da dimensão política da questão ambiental por parte do governo federal a partir de 2023, o projeto ao que tudo indica ganhou novo fôlego. Novo fôlego através de parcerias entre os governos federal, estadual e municipais. Parcerias que se legitimam através de articulações com associações de moradores e pescadores das comunidades atingidas, entre outras, todas voltadas para a sustentabilidade ambiental, social e econômica na região.
Importante dimensão para essa sustentabilidade a curto, médio e longo prazos, é a do conhecimento enraizado na região. Seja ele de conteúdo tácito incorporado em pessoas herdeiras de sabedoria passada de geração para geração de povos originários e quilombolas da região e vizinhanças.
Seja ele sob a forma sistematizada que caracteriza estudos de base científica e técnica como os que são depositários tanto a Ufes quanto o Ifes. Há que se ampliar o esforço já feito por pesquisadores e estudantes dessas duas instituições. Na Ufes, de forma destacada o que vem sendo feito pelo Departamento de Oceanografia. No Ifes pela possibilidade de estabelecer em Regência um novo campus, entre os que estão sendo contemplados pelo governo federal.
Dar forma e conteúdo a tanto o que vem sendo há muito desejado por quem valoriza a riqueza natural e cultural da Foz do Rio Doce e seu entorno, pode ser um bom começo para que alguma compensação seja efetivada ao muito que foi perdido com o crime da Samarco/Vale/BHP. Compensação que para ser operacionalizada precisa da adesão de fato do governo estadual a muito do que já avançaram articulações entre instituições federais, municipais e comunidades locais.
Mais do que a concretização de planos que remontam a meados do século passado, a APA da Foz do Rio Doce é projeto portador de futuro. Porta futuro porque traz possibilidades para o enfrentamento em seu território da emergência climática, da redução da biodiversidade, da questão das águas e de alimentos saudáveis, entre outros. Porta futuro porque associa saberes tradicionais com aqueles gerados por estudos e pesquisas técnicas e científicas na região e seu entorno.