Em tempos de comunicação instantânea e intensa é necessário testar nossas capacidades de seleção, análise e ação. Somos todos fortemente influenciados por redes de comunicação – dos meios de comunicação empresariais às redes sociais – que transformam o mundo em uma vizinhança. Influência que pode afetar a forma e o conteúdo de nossas reações, tanto pelo que é transmitido por ela, quanto por aquilo que ela deixa de considerar como relevante.
Por um lado, somos comovidos pelas perdas humanas em um desastre aéreo. Por outro, nos colocamos distantes de moradores de ruas em nossas cidades e bairros como se fizessem parte de uma paisagem desagradável em nossos deslocamentos frequentes, inclusive para igrejas onde vamos rezar pela fraternidade.
Por um lado, compartilhamos da dor de familiares de vitimas diárias de acidentes automobilísticos em estradas e cidades. Por outro, nos distanciamos do crime contra toda uma geração cujo futuro fica menor com a aplicação de restrições orçamentárias a despesas com saúde, educação, seguridade social.
Por um lado, nos comove a partida de apresentadores de televisão e influencers. Por outro, ficamos apáticos diante da falta de debates esclarecedores sobre a situação política, social e econômica brasileira nos legislativos federal, estaduais e municipais. Falta de debates e sobra de alocação de recursos orçamentários com baixa transparência.
Por um lado, nos entristecemos com as perdas ocorridas a partir de chuvas, incêndios e outras intempéries que cada vez mais frequentemente atigem cidades e regiões. Por outro, somos quase que indiferentes a crimes ambientais que ocorrem todos os dias e cujos autores são protegidos pela omissão direta e indireta dos poderes públicos, que resulta na vergonhosa depredação de nosso patrimônio natural e cultural.
Diante disso, há que rever nossos limites de solidariedade – união de simpatias, interesses ou propósitos entre membros de um grupo; de compaixão – participação na infelicidade alheia que suscita impulso altruísta de ternura para com o sofredor. Há que ampliar nossa capacidade de indignação - reação a atos de injustiça, ofensa ou revolta, praticados contra pessoas e demais seres viventes.
É necessário rever limites de solidariedade e de compaixão e ampliação da capacidade de indignação, necessárias para que possamos almejar o direito de acreditar em possibilidades para além das distopias do dia a dia. Urge acreditar em possibilidades que precisam de mudanças profundas no comportamento individualista que coloca os valores do mercado acima das pessoas, de culturas e do meio ambiente. Individualismo inspirado e que inspira a competição entre pessoas, como se a vida fosse um jogo a ser ganho a qualquer custo.