O ditado popular que adverte não ser suficiente aquilo que se mostra apenas necessário encontra, no Espírito Santo das últimas duas décadas, sua expressão mais acabada. O governo estadual celebrou, recorrentemente, o equilíbrio de suas contas como se esse fosse um fim em si mesmo, quando na verdade representava apenas o ponto de partida para políticas públicas que jamais se materializaram.
O superávit fiscal capixaba, alardeado como conquista civilizatória pelas administrações que se sucederam de 2003 a 2026, funcionou como biombo para ocultar escolhas deliberadas de exclusão econômica e social.
O primeiro sintoma dessa disfuncionalidade reside na arquitetura dos incentivos fiscais e financeiros derivados desse equilíbrio. Longe de se configurarem como instrumentos porosos de democratização econômica, tais mecanismos operaram como filtros seletivos que privilegiaram, sistematicamente, os grandes conglomerados empresariais.
As micro, pequenas e médias empresas capixabas, responsáveis pela maior parte dos empregos formais no estado, permaneceram à margem de um modelo de desenvolvimento que as enxergava como meras coadjuvantes do processo de crescimento. Essa exclusão não foi acidental: foi meticulosamente desenhada para concentrar recursos públicos em poucas mãos, sob o pretexto falacioso de que a atração de grandes plantas industriais geraria transbordamentos automáticos para toda a economia local.
Regiões interioranas e setores intensivos em conhecimento padeceram do mesmo abandono programático. Enquanto a faixa entre a BR 101 e o litoral concentrava investimentos em infraestrutura logística voltada à exportação, vastas porções do território capixaba permaneceram à margem do processo de crescimento desejado. E essa foi uma opção política inequívoca: priorizou corredores de escoamento de commodities, em detrimento da diversificação produtiva do território capixaba como um todo.
O segundo sintoma da insuficiência desse equilíbrio fiscal manifestou-se na crônica subexecução de políticas públicas estruturantes nas áreas de saúde, educação, artes e conhecimento. Os indicadores sociais capixabas melhoraram marginalmente ao longo dessas duas décadas, mas permaneceram aquém do que seria exigível de um estado que se autoproclamava modelo de gestão.
A saúde pública continuou padecendo de déficits estruturais de pessoal e infraestrutura, enquanto a educação pública não conseguiu romper o ciclo de reprodução das desigualdades que caracteriza, historicamente, o estado. As artes e a produção de conhecimento, baseadas nas múltiplas cosmovisões dos povos que habitam o território capixaba — comunidades tradicionais e as populações que habitam bairros mais pobres — foram tratadas como apêndices ornamentais, desprovidas de dotação orçamentária compatível com sua relevância civilizatória.
O terceiro e mais grave sintoma reside na incapacidade, deliberada, de promover a transição do modelo econômico capixaba para os desafios do século XXI. O estado permaneceu atrelado a uma matriz exportadora de commodities de baixo valor agregado, intensiva em recursos naturais não renováveis e vulneráveis às flutuações dos mercados internacionais.
A emergência climática, que deveria orientar uma reestruturação profunda da economia capixaba rumo à sustentabilidade, foi tratada como simples externalidade negativa a ser gerenciada, e não como imperativo ético e econômico a ser enfrentado. A coesão social, comprometida por desigualdades persistentes, jamais figurou como prioridade efetiva das políticas estaduais.
Essas omissões não foram fruto de ignorância técnica ou de restrições fiscais intransponíveis. Foram escolhas políticas deliberadas, gestadas na intimidade das relações entre o poder público estadual e os interesses das grandes corporações que operam no estado. Os três planos de longo prazo, formulados para a economia capixaba nesse período, trazem as digitais inequívocas desses interesses: suas diretrizes foram ditadas pelos setores empresariais hegemônicos, e seu financiamento dependeu de fundos controlados por esses mesmos atores.
O planejamento público converteu-se em instrumento de legitimação de interesses privados.
A política de privatizações e concessões adotada com entusiasmo escancarou essa captura. Por um lado, a tentativa de concessão de parques estaduais à iniciativa privada, sob o argumento de melhoria da eficiência administrativa, representou a subordinação da função precípua dessas unidades de conservação — a preservação do que resta da fauna e flora nativas — à lógica do lucro.
Por outro, a terceirização da gestão de fundos estaduais de incentivo e fomento para gestores financeiros externos ao estado consumou a alienação da capacidade decisória sobre os rumos do desenvolvimento capixaba.
O resultado dessa trajetória é um governo estadual financeiramente equilibrado, mas com uma crescente dívida social. As contas públicas fecharam no azul, enquanto as desigualdades se aprofundaram, os serviços públicos se degradaram e o modelo econômico permaneceu prisioneiro de um paradigma extrativista condenado pela história.
Segmentos econômicos de micro, pequenas e médias empresas, além de movimentos sociais, foram sistematicamente excluídos dos espaços de formulação e deliberação das políticas públicas, reduzidos à condição de espectadores passivos de um projeto que nunca lhes pertenceu ou contemplou.
O equilíbrio fiscal capixaba, portanto, longe de representar uma virtude republicana, revelou-se como a face contábil de um projeto político que sacrificou o futuro do estado no altar da ortodoxia financeira. A suficiência que o ditado popular reivindica, como complemento necessário da necessidade, permaneceu ausente; e sua ausência não foi acidente, mas desígnio.