A questão da fome é histórica e tem fortes vínculos com a distribuição de riqueza, sob a forma de terra, tecnologia ou acesso a financiamento. Reconhecer a questão é pouco. Quase ao final da Segunda Guerra Mundial foi criada uma institucionalidade – a FAO (Organização para a Alimentação e Agricultura) – fruto do reconhecimento da importância da nutrição para a saúde.
Apesar desse reconhecimento e de tudo o que foi feito em mais de 70 anos da FAO, 690 milhões de pessoas vão dormir com fome todas as noites, número que poderá chegar a 840 milhões daqui a oito anos. O que fazer? Em primeiro lugar, reconhecer que a questão da fome é uma questão eminentemente política.
A fome é resultado direto da concentração da produção, de capacitações tecnológicas e de recursos financeiros em mãos de poucos conglomerados com presença global. Sempre com o apoio político e financeiro de governos.
Em terceiro lugar, inovar na maneira como a fome entra na agenda política, principalmente no âmbito do país, de Estados e municípios. É preciso sensibilizar as pessoas para que reconheçam que o muito que foi feito em termos de segurança e soberania alimentar ao longo de anos foi praticamente destruído desde 2016. Sensibilização que resulte no uso do voto como instrumento de retirar do poder quem está subordinado à lógica perversa do agronegócio e nele colocar quem tem compromisso com a agricultura familiar
Sensibilização que inspire ações diretas em territórios voltados para práticas de produção de alimentos saudáveis o mais próximo possível de onde as pessoas moram e trabalham. Práticas que já se fazem presentes em muitos lugares do Espírito Santo e que precisam ser contempladas com recursos financeiros e tecnológicos bem como pelo poder de compra dos governos estadual e municipais.
Entre essas práticas, destaque para o que faz o campesinato (com destaque para o Movimento dos Pequenos Agricultores e o MST) em termos de produção agroecológica e geração e melhor distribuição de trabalho e de renda pelo território capixaba. Também a serem reconhecidas iniciativas como as das hortas comunitárias na Grande Vitória e em outros municípios.
Iniciativas de produção de alimentos saudáveis próximas ao local onde as pessoas vivem com formatos distintos. Algumas através de ações individuais que buscam sensibilizar vizinhanças para a produção de alimentos saudáveis e com baixos custos financeiros. Outras com apoio de prefeituras e empresas que entendem a fome como algo a ser enfrentado por razões éticas, morais, econômicas e sociais.
Há que se aprender com esses esforços, tanto com os que estão dando certo quanto com aqueles que fracassaram ao longo do tempo. Aprender com acertos e principalmente com equívocos para que a busca de segurança e soberania alimentar ocorra de forma a contribuir para vidas mais saudáveis física, social e ambientalmente.
Há que se inovar em formas e conteúdos de parcerias governos-comunidade. Há que se pensar e agir em escalas diferentes, desde ações individuais com apoio de vizinhanças e alocação de recursos de prefeituras; até aquelas de envolvem incentivos dos governos estadual e municipais para que o combate à fome comece com a produção de alimentos saudáveis em escolas de todos os níveis.
Novos papéis para o sistema escolar que pode contribuir tanto para dar comida a quem dela precisa quanto fomentar em jovens a responsabilidade social. Compromisso de cidadania voltado para a produção de alimentos saudáveis em residências, locais de trabalho, ruas, praças, terrenos desocupados.
Responsabilidade de cidadania para com a democracia que vá muito além do exercício do voto a cada dois anos. Que entende o processo democrático como prática constante e permanente voltada para um mundo melhor para si, para o outro, para o coletivo da sociedade. Mundo sem a vergonha da crescente fome de gente nas ruas, em bairros, nas cidades, no Estado e no país.