Independentemente de qualquer divisão ideológica, saúde, educação e bem-estar social devem ser prioridade em qualquer escolha eleitoral. Nada a ver com emoção; pelo contrário, essas prioridades devem ser vista à luz da razão e do interesse de cada pessoa, seja ela altruísta, seja ela egoísta.
Mesmo aqueles que têm como se proteger das incertezas relacionadas a doenças através da compra de plano e/ou seguro saúde precisam valorizar o bom funcionamento de um sistema de saúde público e universal. O caso da pandemia da Covid-19 mais do que ilustrou isso. Foi assim no campo da capacidade da Fiocruz responder aos desafios científicos e tecnológicos do vírus; na forma eficiente como o SUS executou mais um bem-sucedido esquema de vacinação; foi assim também na maneira como o sistema hospitalar respondeu a boa parte da necessidade dos infectados.
Para além da excepcionalidade do caso da pandemia, por maior renda que uma pessoa tenha, todos dependemos do bom funcionamento também de dois serviços prestados pelo saúde pública. Um é o atendimento de emergências a que todos estamos expostos, em casa, no trânsito, no lazer etc..
O outro é o serviço de vigilância sanitária. Seja para assegurar que o processamento e a manipulação de alimentos vendidos no comércio tenha sido feito de forma apropriada; seja que o mesmo ocorra em restaurantes, dos mais simples aos mais sofisticados.
Também na educação a atuação estatal é fundamental para além da reconhecida prioridade do ensino público e de qualidade para todos. Uma vez mais, mesmo quem tem condições financeiras de oferecer toda a formação escolar de filhos em estabelecimentos privados, também deve valorizar entidades governamentais que acompanham o funcionamento desses estabelecimentos de forma a minimamente assegurar qualidade na oferta do ensino privado.
Todos precisamos que a formação em todos os níveis se dê de forma a podermos confiar nos serviços que médicos, engenheiros – entre tantas outras profissões – são prestados por profissionais com formação adequada. E o acompanhamento dessa prestação de serviços precisa ser feita por organismos voltados para o interesse de todos; por isso, governamentais.
A busca de assegurar bem-estar para todos também está longe de ser algo que só interessa àqueles mais identificados com políticas progressistas. O bem-estar desejado através do meio ambiente bem cuidado interessa a todos, independentemente de condição econômica ou financeira. O ar respirado; a água bebida; o solo onde é cultivado o pão nosso de cada dia: é para todos ou é para ninguém. E por isso cuidar deles precisa ser algo acompanhado por organismos públicos.
A busca de bem-estar social também pode ser vista como forma de fazer frente a uma questão bastante objetiva: qualquer injustiça com quem quer que seja coloca em risco a justiça para qualquer um e para todos. Uma vez mais, garantias oferecidas a quem possa pagar por serviços voltados para assegurar direitos e segurança são mera ilusão para quem as busca.
Ainda que o mercado propague suas virtudes para quem pode pagar, é impossível assegurar saúde, educação e bem-estar, através da simples compra e venda de tudo o que está envolvido nesses serviços essenciais. O marquetismo pode até encantar quem se quer melhor ou superior, mas o resultado para quem pode pagar é, no melhor dos casos, apenas parcial, bem parcial.
Assegurar políticas públicas universais nessas três áreas é, portanto, do interesse de todos. Políticas públicas que necessitam da boa articulação de governantes com a sociedade como um todo; todo cada vez mais complexo em um Brasil crescentemente excludente no campo econômico (inclusive a maioria das empresas de micro, pequeno e médio portes) e social.
É sempre bom lembrar que o enfrentamento dessa exclusão que é histórica no Brasil tem no voto um de seus instrumentos. Por isso, o necessário exercício do voto para além de interesses apenas pessoais e individualizados.
Afinal, estamos todos em um mesmo voo; uns na primeira classe; outros na executiva; e a maioria na turística. Mas, se o avião cair, as chances de sobrevivência são praticamente as mesmas. Por isso, vale eleger uma equipe de bordo que pense no bem-estar de todos, mesmo que as refeições e o conforto das poltronas em cada classe sejam diferentes.