O mundo precisa aceitar uma verdade inconteste. Estamos vivendo uma era na qual os vírus ocuparão lugar de destaque na agenda governamental e na organização do estilo de vida das pessoas. A pandemia da Covid-19 foi um alerta global sobre uma realidade que cientistas, estudiosos de políticas públicas e pesquisadores de saúde coletiva do mundo inteiro já anunciavam.
O mundo sofrerá as consequências da destruição ambiental acelerada, do aquecimento global, da falta de financiamento em saúde e das políticas públicas de caráter mais individual do que coletivo. Bill Gates, o fundador da Microsoft e um dos homens mais ricos do mundo, alertou para os riscos de novas pandemias e a necessidade de se aumentar os investimentos em pesquisas nessa área, especialmente no desenvolvimento de vacinas.
Ao afirmar que “a nova pandemia vai ser mais mortal do que a do coronavírus”, Gates nos permite compreender que o problema não pode ser considerado apenas na perspectiva e na lógica da Saúde. Pandemias afetam as economias e colocam em risco os negócios, independentemente das áreas nas quais estejam inseridos.
Bill Gates está focado na questão do desenvolvimento de pesquisas diretamente ligadas à saúde e à inovação em vacinas e em medicamentos. Mas o problema precisa ser enfrentado também sobre outras perspectivas, considerando ser uma questão transdisciplinar que envolve decisões políticas em áreas como educação, moradia, meio ambiente, segurança alimentar e tantas outras que se entrecruzam e que tem a Saúde e a vida humana como fim.
Nesse sentido, sustenta-se aqui a afirmativa de que a humanidade vive sob o risco de que, se nada for feito para frear o modo como nos organizamos em sociedade, a maneira como nos relacionamos com o meio ambiente e com nossos semelhantes e a forma como nos preparamos para o futuro no que diz respeito às políticas públicas em geral e de saúde em particular, viveremos de pandemia em pandemia. Algumas questões me parecem relevantes para uma análise objetiva do problema:
- Há uma impossibilidade real de que decisões em saúde possam ser tomadas isoladamente de forma imediata com vistas a impedir a rápida propagação dos vírus. Isso implica em aceitar que é preciso planejamento global da saúde em articulação com organismos internacionais e interface com outras políticas internas e externas;
- Nossa total dependência de investimentos em políticas de saúde que contemplem ações de atenção à saúde coletiva, com prevenção de doenças, promoção da saúde e tratamento das doenças e seus agravos. Isso demanda investimento público compatível com a dimensão do problema a ser enfrentado;
- Nesse sentido, investimentos no desenvolvimento de vacinas, observando que isso demanda um tempo lógico e cronológico necessário para que todos os protocolos de pesquisa sejam obedecidos;
- As desigualdades sociais que impõem a muitos uma condição de existência não compatível com medidas de isolamento e prevenção de contágio exigem investimento em garantia do Direito à moradia digna, com condições de salubridade e dignidade;
Enfim, é preciso reconhecer que a saúde precisa ser pensada em uma perspectiva global, compartilhada, com valorização dos organismos internacionais e não apenas com políticas internas. A sobrevivência da vida humana no planeta pode estar ameaçada por esse fenômeno de propagação sem o devido controle dos vírus e por nossa incapacidade de pensar o problema de maneira ampliada e compartilhada. Nesse sentido, é necessário lembrar que economia depende da Saúde e a Saúde depende da economia. Investir em Saúde é investir em economia. Não teremos saúde para alguns se não lutarmos para que todos tenham acesso às mesmas condições para obtê-la.