Fechada a janela de trocas de filiações partidárias, a política no
Espírito Santo ficou com jeito de vaca não reconhecer bezerro. Um prenúncio de guerra de todos contra todos. No Senado, todos os candidatos contra
Paulo Hartung, se Hartung for candidato. Na governadoria, todos contra
Renato Casagrande, se Casagrande confirmar a candidatura. De quebra, um monte de fissuras dentro dos partidos, emulando um troca-troca frenético.
No passado recente, até as eleições de 2010, praticou-se a tal da geopolítica, neologismo usado na época para apelidar uma espécie de aliança (artificial) de todos com todos. Agora, muitos pintados para a guerra. Assim, tenho a impressão de que a nossa já famosa Teoria do Caranguejo é o novo amigo oculto das
eleições de 2022 no Espírito Santo. Reza a teoria que o capixaba age como na panela de caranguejo: ninguém deixa ninguém sair da panela. Quem se destaca é imediatamente puxado de volta para a panela.
A resultante vem a ser a dificuldade de estabelecer, na sociedade e na política, uma cultura de confiança, colaboração e reciprocidade, importantes no processo de desenvolvimento. 2022 está assim. Maus presságios para a estabilidade política da gestão que vai assumir a liderança do Estado em 2023.
Até agora, todas as pré-candidaturas colocadas para governador repetem um mesmo refrão: vamos mudar e vencer. Mas a miríade de candidaturas não expressa legitimidade e respaldo popular para criar um projeto alternativo. Não têm cara de mudança e cancha para mobilizar e conversar com a sociedade. Já na vaga de senador, não se conhece ainda o significado das pré-candidaturas.
E aí? Aí que o estímulo à proliferação de candidaturas a governador - impulsionado pela reconhecida inteligência política do ex-governador Paulo Hartung - está produzindo um bumerangue político. A primeira vítima foi a ensaiada pré-candidatura de Eugênio Ricas, que já se retirou do páreo. Esse bumerangue produziu um desgaste político para o ex-governador. Basta ouvir o mercado político para constatar o desgaste. Hartung ainda não foi convincente sobre uma eventual candidatura ao Senado. Saberemos logo.
Com o fim das janelas partidárias, agora vem a fase da construção das candidaturas. Procurar Sua Excelência, o eleitor. Por enquanto, os principais líderes políticos são os mesmos. Paulo Hartung e Renato Casagrande. Estamos assistindo à lição gramsciana. O novo está nascendo, mas o velho ainda não morreu.
A política capixaba está em processo de transição até 2026. Essa transição será abreviada? Mas, aí, vem a dúvida socrática: quem é o novo e quem é o velho? Não imaginávamos, por exemplo, Felipe Rigoni presidindo o conservador União Brasil (fusão do PSL e do DEM) e, como presidente, arbitrando os gastos do orçamento generoso dos fundos eleitoral e partidário do União Brasil. No contexto do crescimento de uma cleptodemocracia. Isso aí é “nova política”?
Dito isso, cabe registrar que, também para o Espírito Santo, as eleições de 2022 são de importância histórica. Estamos no meio de uma transição política que vai levar a uma troca de guarda na política regional. Vai ser politicamente lamentável se 2022 se transformar numa guerra de todos contra um – e terminar numa guerra de todos contra todos. Aniquilando, no final, vinte anos de construção de estabilidade fiscal e estabilidade política, legados de Hartung e Casagrande, alternadamente.