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Política

O fenômeno Pablo Marçal e os impulsos para o 'caminho do meio'

Liberalismo econômico, político e social. A dialética da contradição produzindo nova síntese. O barômetro que advirá das eleições municipais em curso provavelmente nos indicará esta resultante em curso. Não é agora nem amanhã. É um processo

Publicado em 07 de Setembro de 2024 às 02:00

Públicado em 

07 set 2024 às 02:00
Antônio Carlos de Medeiros

Colunista

Antônio Carlos de Medeiros

Há movimentação de placas tectônicas na política brasileira. Isso nos leva a uma proposição contraintuitiva: temos nova síntese política em processo de formação.
É a formação de uma cosmovisão liberal. Movimentações e metamorfoses na sociedade que prenunciam o avanço do liberalismo social. Um processo na sociedade. E não um “acordo pelo alto”, na velha tradição patrimonialista brasileira.
Vamos prestar atenção no fenômeno Pablo Marçal. Seu combate ao status quo é o sintoma mais recente das dores e sentimentos da sociedade brasileira. Ele já produziu um fenômeno político. Marçal não é apenas um anarquista digital.
Pablo Marçal debate candidatos a prefeito de SP
Pablo Marçal em debate de candidatos a prefeito de São Paulo Crédito: Roberto Casimiro /Fotoarena/Folhapress
Ele se conecta com enorme contingente de brasileiros que carregam o DNA liberal. O imaginário do empreendedorismo, do trabalho para “vencer na vida” e da visão do Estado como um entrave burocrático. A visão do trabalho e esforço como instrumento de ascensão social. A ética protestante e o espírito capitalista, diria Max Weber.
Em 2016/2017, uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo, do PT, detectava essa tendência nas periferias de São Paulo. Evoluiu pelo país. Pesquisas atuais mostram que o crescente contingente de precarizados tem o espírito empreendedor. Com visão liberal contrária ao Estado. Esse novo fenômeno pode estar “servindo de meio para a disseminação de um novo liberalismo não apenas econômico”, pontua Felipe Nunes.
Impulsos para um “caminho do meio”.
Mas onde estão outros sinais da formação de uma nova síntese? No avanço concomitante, na sociedade, do bolsonarismo e do lulismo. Ao mesmo tempo, o avanço do cansaço com a polarização produzida como estratégia eleitoral gera contradições que impulsionam o “caminho do meio”: o liberalismo social no contexto de uma social democracia.
Liberalismo econômico, político e social. A dialética da contradição produzindo nova síntese. O barômetro que advirá das eleições municipais em curso provavelmente nos indicará esta resultante em curso. Não é agora nem amanhã. É um processo.
Roberto Schwarz dizia que as ideias do liberalismo europeu eram ideias fora do lugar no Brasil. A nossa herança escravocrata e patrimonialista era (é ainda) entrave às ideias liberais. Aqui, a retórica convivia (ainda convive) com a sua negação na prática. A sociedade da “meia entrada” de Marcos Lisboa. Ou a sociedade de liberais até a segunda página – tanto à direita quanto à esquerda do espectro político.
Esse contexto pode estar diante de um ponto de inflexão. Neste momento histórico, a cosmovisão em formação percebe o Estado como provedor, ao lado do mercado, da liberdade. Estado & Mercado. Para além do liberalismo econômico, a ascensão do liberalismo social: direitos civis, políticos e sociais, coexistindo em uma democracia representativa.
A nova síntese em formação é causa e consequência dessa visão ascendente. Advinda da base da sociedade. Ao mesmo tempo, advinda do cansaço com a polarização política.
Com as devidas “dores do parto”. O fenômeno Pablo Marçal faz parte das “dores do parto”. A ambiguidade do presidente Lula diante de novos desafios geopolíticos nacionais e internacionais, também.
Peço licença ao leitor para uma rápida digressão.
Em seu estudo seminal (“A História Perdida do Liberalismo-da Roma antiga ao Século XXI”),  Helena Rosenblatt rastreou a transformação do liberalismo.
Desde Cícero (106-43 AC). A ênfase, já na pré-história, do cidadão na Roma antiga — “livre, generoso, com projeto ético voltado ao bem comum e ao respeito à conexão mútua” — a cidadania com ação coletiva, para além do indivíduo.
Ela narra a História do liberalismo. A França inventou o liberalismo, originário da Revolução Francesa. A Alemanha o reconfigurou, com o liberalismo religioso e o estímulo à ética protestante, com sua repercussão na natureza do capitalismo. A Grã Bretanha incentivou o liberalismo político. No século XX, os Estados Unidos reduziram o liberalismo à sua dimensão econômica.
Os liberais na França, Inglaterra e Alemanha não viam conflito em ser liberal e favorecer qualquer tipo de intervenção governamental voltada ao bem comum. O indivíduo sim. A sociedade também.
Com o iluminismo, era possível falar não apenas em indivíduos liberais, diz ela. Mas também de sentimentos, ideais e modos de pensar: um modo de vida. Ou seja, forjar um meio termo entre laissez-faire e socialismo, como em meados do século XIX.
Na síntese final da sua longa resenha histórica, Rosenblatt enxerga que “os liberais devem se reconectar com os recursos de sua tradição liberal para recuperar, compreender e abraçar seus valores centrais: o bem comum”. Era isso que ela enxergava em pleno século XXI.
Para José Guilherme Merquior, na resenha de Anderson Barbosa, no Brasil as exigências sociais não podem ser atendidas pelo liberalismo econômico. Aqui, “a síntese entre liberalismo e democracia é incompleta”. Daí a defesa do liberalismo social.
Volto à minha proposição contraintuitiva: a nova síntese política em formação no Brasil estimula e é estimulada pela cosmovisão do liberalismo social.
A busca do “caminho do meio”, se desprovido da ideia-força da cosmovisão, não terá força para impulsionar um novo consenso no seio da democracia representativa: a convivência entre os contrários com nova ideia-força e nova visão de futuro. Com reformas políticas.
Ou, então, a continuidade do “salve-se quem puder” em que está se tornando a política nacional. A liquefação da Política.

Antônio Carlos de Medeiros

E pos-doutor em Ciencia Politica pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaco, aos sabados, traz reflexoes sobre a politica e a economia e aponta os possiveis caminhos para avancos possiveis nessas areas

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