Em Brasília, a profusão de CPIs turvou o ambiente político e alertou o presidente Lula da necessidade de fazer o dever de casa para buscar o equilíbrio interno, isto é, a estabilidade política e a coesão social.
Ao mesmo tempo, os ruídos causados pelos sinais trocados emitidos pelo presidente em sua viagem à China o levaram ao reajuste da diplomacia presidencial. A China é importante. A paz na Ucrânia é importante. Mas a União Europeia e os Estados Unidos também são importantes. Tanto os valores democráticos, quanto os interesses do Brasil, não recomendam o seu afastamento do Ocidente. É preciso manter o equilíbrio externo.
Essa noção da sintonia entre o equilíbrio interno e o equilíbrio externo está em curso. O desafio principal, e mais amplo, é criar condições políticas e sociais para repactuar um novo projeto de desenvolvimento para o Brasil.
A busca do equilíbrio interno passa pela aprovação da âncora fiscal e da reforma tributária. Não vai ser fácil. Tanto a âncora quanto a reforma significam o enfrentamento do vespeiro do conflito distributivo. Ou seja, a retirada ou diminuição de benesses fiscais. E a retirada do caráter regressivo do sistema tributário, concentrador de renda.
A âncora e a reforma são condições necessárias, mas não suficientes, para o equilíbrio interno no Brasil. Elas precisam ser vistas como pré-requisitos para o desafio mais amplo de pactuação de um novo projeto de desenvolvimento.
Há poucos dias, José Dirceu foi ao âmago da questão: “o Brasil precisa de um Novo Acordo Nacional”.
Um Acordo, segundo ele, envolvendo “o governo, o Congresso e o empresariado”, da direção da construção de consenso e equilíbrio interno para um projeto nacional de “fazer 100 anos em 10”.
Esse equilíbrio interno permitiria ao Brasil tirar proveito efetivo da crise geopolítica externa, que abre um leque de oportunidades para o país configurar novo projeto de desenvolvimento e reindustrialização, com ênfase em educação e ciência e tecnologia.
Além de mirar a paz, a diplomacia presidencial precisa usar a força do Brasil como potência climática e celeiro do mundo. Por gravidade, como pontuou Luiz Carlos Azedo, a produção de commodities agrícolas e de minérios, inclusive semicondutores, insere o Brasil no mundo das novas tecnologias.
Podemos, diz ele, “recuperar nossa complexidade industrial com a produção de fármacos e eletrônicos, nos inserindo na reestruturação das cadeias globais de valor”.
Para Dirceu, esse projeto não é só do PT. “Estou pensando num governo de Frente Ampla para reformas, com a mesma configuração do segundo turno de 2022”.
Neste contexto, de equilíbrio interno e coesão social, a inserção internacional do presidente Lula poderia ser mais efetiva. Até porque o capitalismo vive mais um daqueles momentos históricos de impasse, agora com uma crise de subconsumo. Precisa se repaginar.
É nessa conjunção histórica que o Brasil pode assumir o seu lugar, mas antes precisa fazer o dever de casa, concluiu Dirceu em entrevista a Kennedy Alencar. Sintonia. Esse é o nome do jogo.