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Sociedade

Eis que apenas 4,7% dos brasileiros confiam nos outros brasileiros

A explosão da cacofonia das redes sociais acaba por gerar o efeito perverso (no sentido sociológico) do confronto, da polarização e do tribalismo político

Publicado em 05 de Março de 2022 às 02:00

Públicado em 

05 mar 2022 às 02:00
Antônio Carlos Medeiros

Colunista

Antônio Carlos Medeiros

Piorou. Sem um mínimo de confiança uns nos outros, teremos grande dificuldade para amalgamar consenso nas eleições gerais deste ano. Sem consenso e governabilidade, permaneceremos nessa quadra histórica, constituindo um país sem Nação. Uma propensão à sociedade hobbesiana do “homem lobo do homem”. Exagero? Nem tanto. Sem confiança e consenso, não haverá prosperidade. Aprofundando a nossa armadilha de país de renda média.
Vamos aos números. Pesquisa recente do BID mostra que o Brasil é o país onde menos uma pessoa confia nas outras: somente 4,7% da população. É um forte obstáculo ao desenvolvimento. A média mundial é de 25%. No Uruguai 21%. Na Argentina 16%. Nos países da OCDE 41%. Na Noruega é acima de 65%. Sem confiança, não há uma cultura da cooperação e da associação, bases da produção de riquezas no mundo globalizado.
Há um nexo causal entre cultura e desenvolvimento – entendendo-se a cultura como um produto da História, e a História como um produto da cultura. As dimensões culturais e institucionais têm forte influência na evolução dos processos de desenvolvimento.
No plano do comportamento dos indivíduos, uma cultura da cooperação vem da formação – historicamente construída – de quatro atributos: (1) uma ética do trabalho duro e da responsabilidade; (2) uma propensão à cooperação e à reciprocidade (predisposição para cooperar com os outros e para punir aqueles que violam as normas da cooperação); (3) uma mentalidade voltada para a inovação e para a explicação científica dos fenômenos de sociedade; e (4) uma ética de olhar para o futuro, de poupar para o futuro, de ter projeto de construção de futuro.
Esses atributos, em conjunto, conformam uma cultura da confiança no outro e da cooperação, levando à prosperidade. Como consequência, levando à formação, na sociedade, da propensão à conectividade entre indivíduos – o que Robert Putnam chama de “capital social” de uma nação. Trata-se de uma sociedade civil forte, conformada por inúmeras formas de cooperação e associação, por exemplo: associações de moradores; de organizações religiosas; de times esportivos; de grupos de civismo; de trabalho voluntário; e muitas outras formas de cooperação. O Brasil teve/tem tudo isso.
Mas, hoje em dia, a explosão da cacofonia das redes sociais acaba por gerar o efeito perverso (no sentido sociológico) do confronto, da polarização e do tribalismo político. Terá o Brasil, neste momento histórico de busca da restauração do Estado e construção de novo contrato social, condições histórico-sociais de formar, a longo prazo, no horizonte de uma geração, um estoque de “capital social”? Com o impulso da política e do processo político de 2022 e depois, trata-se de mais um desafio. A confiança é a base do funcionamento da sociedade. Cabe-nos esse alerta coletivo, no ano em que completamos 200 de Independência.

Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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