No limiar do terceiro mandato do governador Renato Casagrande, o debate sobre os rumos do desenvolvimento capixaba recebeu, em janeiro último, duas reflexões muito pertinentes. Orlando Caliman e João Gualberto, cada qual em seu respectivo campo de análise, chamaram a nossa atenção para a existência de dois nós górdios.
Caliman, na economia, reabriu o debate da “armadilha da baixa complexidade econômica” do ES, acompanhada da desautonomia relativa da política econômica, já que grandes decisões ocorrem fora do nosso território – seja no plano nacional, seja no plano internacional.
João Gualberto, na política, levanta a instigante hipótese de que a direita do espectro político está diante de um labirinto. Para ele, o 8 de janeiro “foi um ponto de inflexão na coalisão bolsonarista, com uma forte tendência à redução da importância da liderança de Bolsonaro”. A hipótese vale para o Brasil e para o Espírito Santo.
Na economia, tanto a baixa complexidade quanto a desautonomia da política econômica estadual têm resultado em baixa competitividade e em queda da taxa de investimentos. No período entre 2010 e 2020, “o PIB per capita do Espírito Santo teria sofrido uma queda de aproximadamente 21% em termos reais”, diz Caliman.
Na política, aponta Gualberto, as contradições internas da coalisão bolsonarista induzem ao surgimento de pelo menos três movimentos políticos e partidários na direita brasileira (e capixaba). Os mais liberais, segundo ele, têm como lideranças políticos como Zema, Tarcisio Freitas e Ratinho Júnior. Outro movimento, mas conservador nos costumes, tem como referência a provável liderança do agora senador Mourão. E um terceiro bloco seria o dos radicais, que podem ou não contar com a liderança de Jair Bolsonaro, diz Gualberto.
Com a direita à porta de um labirinto e com a economia andando de lado, ampliam-se os desafios para a política de desenvolvimento no terceiro mandato de Casagrande. Será preciso intensificar esforços para a diversificação econômica e para o avanço da produtividade e da inovação. Ainda é predominante a vulnerabilidade decorrente da supremacia da instabilidade da plataforma de commodities. Avançou-se pouco na direção da mudança do perfil da economia.
Na política econômica estadual, agora é preciso ousar mais. Superar gargalos ainda existentes na infraestrutura (como os da Serra do Tigre e o da BR 262). Induzir mais a geração de investimentos que possam agregar valor e adicionar competitividade, inclusive das grandes empresas como a Vale, a Arcelor, a Suzano e a Petrobras. A Vale, por exemplo, com o projeto da fábrica de HBI, de maior valor agregado.
Já na esfera política, com uma transição política em curso, a hipótese do labirinto, de João Gualberto, joga luz sobre a necessidade/oportunidade de rearrumação ou realinhamento da correlação de forças políticas dominantes. Jair Bolsonaro teve 58% dos votos nas eleições de 2022 no Estado. Esse ativo político permanecerá? Qual é a vertente da direita que tende a ganhar tração no ES?
Caliman e Gualberto nos fornecem reflexões instigantes e úteis. Os nós górdios serão desatados pelo novo governo estadual e pela coalizão políticamente dominante no Espírito Santo?