(Inspirado no texto “Felizes por enquanto”, da escritora, ativista Guarani Geni Núñez, em "Escritos sobre outros mundos possíveis")
Somos educadas (os) para celebrar os começos. O primeiro encontro, o pedido de namoro, o casamento, as promessas de eternidade. A cultura do amor romântico construiu uma verdadeira liturgia dos inícios, como se o sucesso de uma relação pudesse ser medido exclusivamente por sua duração. Por quanto tempo você foi casada? Ficaram juntos por quantos anos?
Mas pouco se fala sobre os fins.
Ninguém nos ensina a terminar, à exceção dos poetas. Como fez Vinícius de Moraes: “Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure.”
Não aprendemos a lidar com a despedida, com a mudança dos afetos ou com a constatação de que algumas histórias simplesmente cumprem seu ciclo. Em vez disso, somos levados a acreditar que o amor verdadeiro é aquele que resiste a qualquer custo, mesmo quando a felicidade já não habita a relação.
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Talvez esteja aí uma das armadilhas mais perigosas do imaginário amoroso: a ideia de que acabar significa fracassar.
No entanto, nem todo término é uma derrota. Há relações que terminam porque as pessoas mudam, e mudar é uma das formas mais belas de estar vivo, pois somos seres inacabados, atravessados pelo tempo, pelas experiências, pelos encontros e por que não também dos desencontros?
Outras relações terminam porque os projetos de vida seguem direções distintas. Algumas acabam porque o respeito se perdeu. Nesses casos, os limites existem para proteger nossa dignidade, nossa integridade emocional e nossa liberdade. Não se demore onde não há respeito!
Amar alguém não deveria significar possuir. Tampouco deveria significar exigir permanência quando o desejo de estar junto já não existe.
Essa reflexão é especialmente importante em uma sociedade que ainda naturaliza comportamentos de controle e posse, muitas vezes confundidos com demonstrações de afeto. Quantas vezes o fim de uma relação é tratado como uma afronta? Quantas mulheres são perseguidas, ameaçadas, agredidas e até assassinadas por parceiros incapazes de aceitar uma separação?
Ciúme excessivo, monitoramento constante e vigilância sobre amizades, roupas ou rotinas são comportamentos abusivos. Não romantize frases como: “Tenho ciúmes porque te amo”, “Só quero te proteger” ou “Ninguém vai gostar de você como eu”. Não é sobre amor, é sobre controle.
Os dados sobre violência contra as mulheres mostram que os momentos de ruptura estão entre os mais perigosos de uma relação. Isso revela uma questão inquietante: talvez algumas pessoas não sofram apenas pelo término em si, mas pela perda do poder que acreditavam exercer sobre o outro.
Um amor saudável não se mede apenas pela forma como começa ou por quanto tempo dura. Ele também se revela na maneira como termina.
Respeitar os fins é reconhecer a autonomia do outro. É compreender que ninguém nos pertence. É aceitar que o afeto não pode ser mantido por obrigação, culpa, medo ou insistência.
Isso não significa romantizar a dor da despedida. Términos doem. Como bem disse o poeta Luís de Camões:
“Amor é fogo que arde sem se ver;
é ferida que dói e não se sente;
é um contentamento descontente;
é dor que desatina sem doer.”
Despedidas deixam marcas. Há lutos que levam tempo para serem elaborados. Mas existe uma diferença fundamental entre sofrer uma perda e transformar essa perda em ressentimento, perseguição ou violência.
Talvez a maturidade afetiva consista justamente em compreender que algumas pessoas foram importantes em determinada etapa da nossa vida e que isso, por si só, já possui valor. Nem toda história precisa durar para sempre para ter sido significativa.
Como tão lindamente nos ensina o poeta ensinou Gilberto Gil em “Drão”: O amor da gente é como um grão/ Uma semente de ilusão/ Tem que morrer pra germinar/ Plantar nalgum lugar, ressuscitar no chão/ Nossa semeadura/ [...] Quem poderá fazer aquele amor morrer/ Se o amor é como um grão/ Morre, nasce trigo/ Vive, morre pão.”