No meu artigo da semana passada chamei a atenção para novas oportunidades de desenvolvimento, que podemos chamar de brechas de oportunidades, que podem se abrir para o Brasil e também para o Espírito Santo, mesmo num cenário global um tanto quanto adverso, por conta dos últimos acontecimentos – pandemia e guerra.
A configuração de uma nova geoeconomia, já em curso, naturalmente não descolada de uma nova geopolítica, vem provocando mudanças nas estratégias de negócios globais com impactos em cadeias de suprimento e em mercados, numa busca de maior previsibilidade. Há espaços a ocupar nesse novo cenário.
Ora, se existem ou existirão espaços a serem ocupados, resta-nos o desafio de primeiramente termos uma percepção minimamente clara de quais são ou serão eles e, na sequência, avaliarmos as condições e condicionantes que nos possibilitariam ocupá-los. Daí a sugestão feita no referido artigo de se construir um mapa de oportunidades, a servir de guia e também referencial em relação ao que deve e pode ser feito.
E mais, onde deveremos alocar recursos, ou seja investimentos, nas suas mais deferentes modalidades, tais como educação, inovação, infraestrutura, tecnologia, gestão, pesquisa e desenvolvimento, dentre outros, que tornem o Espírito Santo mais competitivo e atrativo para os negócios.
A abertura para esses novos espaços, no entanto, requer nos desvencilharmos do que poderíamos denominar de “armadilha da baixa complexidade econômica”. Observando e avaliando a economia capixaba nos últimos 50 anos, chego à conclusão de que nossa economia não somente se afeiçoou à comodidade de um crescimento contratualizado e de longo curso, que agora se esmorece, como viu-se presa, por consequência a uma verdadeira armadilha que a limita quando fazemos a leitura pela ótica da complexidade econômica.
A teoria da complexidade econômica foi desenvolvida pelo pesquisador e professor Ricardo Hausmmann, da Harvard Kennedy School, que também a transformou em ferramenta para medir a complexidade econômica entre países e estados. No Brasil, alguns estados já adotaram sua teoria e ferramentas de trabalho, com destaque para Minas Gerais.
Hausmmann utiliza apenas duas variáveis para medir o grau de complexidade e consequentemente de competitividade nas relações comerciais externas: diversidade e ubiquidade de produtos. Diversidade diz respeito à quantidade de produtos que um país exporta com vantagem competitiva. Já ubiquidade, tida como segredo da competitividade, relaciona-se a quantidade de países que produzem um determinado produto com vantagem competitiva.
Associando essas duas variáveis vamos ver que a economia capixaba apresenta uma baixa complexidade e sofisticação econômica: tem sua pauta de exportação, fortemente concentrada em quatro blocos de produtos. Cerca de 90% do valor das exportações. Commodities que funcionam como base da grandes cadeias globais de valor. Não deixa de ser uma vulnerabilidade.
Aliás, a mesma armadilha detectada para Minas Gerais, em estudo realizado por pesquisadores da UFMG, da FJP- Fundação João Pinheiro e governo de MG, com o sugestivo título de “Armadilha da baixa complexidade em Minas Gerais: O desafio da sofisticação econômica em um estado exportador de commodities”, publicado na Revista Brasileira de Inovação (Campinas), em 2018. Vale registrar que Minas Gerais já vem implementando estratégias e iniciativas no sentido de escapar da referida armadilha por meio do mapeamento de novos espaços de produtos. Para tanto criou a plataforma Dataviva, com tecnologia do MIT Media Lab.
Eis um desafio para o Espírito Santo.