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Política

Disputa por cargos no Executivo e no Legislativo está travando o governo Lula

O governo precisa de energia administrativa e política para focalizar o novo arcabouço fiscal e a reforma tributária. O presidente da Câmara, Arthur Lira, já deu a senha: não vai ser fácil aprovar

Publicado em 11 de Março de 2023 às 00:20

Públicado em 

11 mar 2023 às 00:20
Antônio Carlos Medeiros

Colunista

Antônio Carlos Medeiros Antônio Carlos Medeiros
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva Crédito: Ricardo Stuckert/PR
A micropolítica não pode prevalecer sobre a macropolítica. Ainda bem que, mais uma vez, parece estar prevalecendo a intuição política de Lula. É notório que, em apenas dois meses, ele começa a compreender, na prática, as novas condições do (des)equilíbrio de poder no Brasil.
Equilíbrio de poder que sempre foi instável, pela própria natureza do sistema político brasileiro — multipartidário com um “semi-presidencialismo” factual cada vez mais intenso, desde que foi inscrito na Constituição semiparlamentarista de 1988. Pois bem. Agora desequilibrou.
É fato. E Lula, com sua longa experiência política, sabe que, em política, não se deve brigar com os imperativos da realidade.
Assim, o seu pragmatismo começou a falar mais alto do que as disputas de poder, explícitas e implícitas, no interior da chamada Frente Ampla. A prática da micropolítica. Ele sabe que as disputas estão virando efeito bumerangue: paralisia decisória e perda de poder da presidência da República. A micropolítica não pode prevalecer sobre a macropolítica.
Lula então se volta para articular o ajuste em busca do equilíbrio de poder. Lidando com um Congresso mais forte. Com a baixa legitimidade do seu (Lula) mandato conquistado nas urnas. Com os entes federais, estados e municípios, mais organizados e com maior protagonismo. E com a sociedade civil querendo mais entregas e menos promessas.
São três pilares de poder político a serem articulados com diálogo e pragmatismo. O Congresso e a base aliada. A base do governo está desarticulada. Depois, os governadores e prefeitos e o pacto federativo. E a mediação política com a sociedade - com o “conselhão”, o Fórum da federação, e os conselhos ministeriais e interministeriais.
Na atual conjuntura, o essencial é que, em cenário de desaceleração econômica, é preciso prevalecer o mantra: “É a economia, estúpido”. Por isso, o governo precisa de energia administrativa e política para focalizar o novo arcabouço fiscal e a reforma tributária. O presidente da Câmara, Arthur Lira, já deu a senha: não vai ser fácil aprovar. São reformas que mexem no vespeiro do conflito distributivo.
Enquanto isso, parecem apressadas as conclusões de que o governo Lula está perdendo o rumo. Os fatos e as medidas já em curso não apontam nessa direção. É só olhar para o que já foi iniciado em apenas 60 dias, apesar da tragédia do 8 de janeiro.
A micropolítica está prevalecendo no Executivo, mas também no Legislativo, com o início efetivo do ano político, agora em março. O blocão que elegeu Arthur Lira está se desfazendo. Com a formação das comissões temáticas, as disputas por cargos e e poder tendem a arrefecer. Mas ainda não arrefeceram. No Executivo, com a formação dos segundo e terceiro escalões, também tendem a arrefecer as disputas por cargos e poder. Mas ainda continuam. ( Não é fácil articular uma Frente Ampla composta por 37 ministérios...).
Lula parece estar virando essa página. A conferir. Brasília está no ritmo frenético da incerteza do vamos ver.
Sem Frente Ampla, vai ser muito difícil alguma estabilidade política e ancoragem das expectativas. O PT e os outros partidos da base aliada precisam compreender essa realidade pós-Bolsonaro. Para não deixar a política virar um desfile recorrente de efeitos bumerangue. Com um jogo de soma zero no final.

Antônio Carlos Medeiros

Antônio Carlos Medeiros Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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