Na reta final das eleições presidenciais, enquanto começa a aparecer sinal amarelo tanto para
Lula quanto para
Bolsonaro – com ligeira vantagem para
Lula –, emergiu o sinal vermelho do que nos espera em 2023.
No Brasil, a atividade econômica recuou 0,8% em agosto. Sinal de que a esperada desaceleração econômica – ao contrário das previsões de Paulo Guedes – está chegando. A sequência de juros altos, aqui e acolá, que deve continuar “sine die”, começa a desencadear a esperada retração do lado da oferta (indústria e serviços) e do lado da demanda (consumo das famílias). O agronegócio continua sendo o esteio da economia brasileira, em sua (da economia) toada de voo de galinha.
Voltamos, então, à indagação que repetimos há muitos anos: quando teremos prosperidade sustentável e quando vamos superar os longos ciclos de voos de galinha?
Como corolário: quando teremos no país poder de agenda, com uma coalizão democrática de governo, para enfrentar conflito distributivo e os interesses encrustados no Orçamento da União com uma agenda progressista voltada para a prosperidade e a riqueza social?
Com a impressionante escalada da guerra de rejeições entre Bolsonaro e
Lula (antipetismo”versus” antibolsonarismo), estamos passando ao largo, pelo menos até o dia 30, dos verdadeiros problemas nacionais. Agora mais urgentes. Carências crescentes na educação, na saúde, no meio ambiente e na segurança. Nova desaceleração da economia. Mais pobreza e desigualdade (atualmente “sombreadas” pela injeção na veia de auxílios emergenciais e setoriais, até dezembro). Crise fiscal já contratada para 2023. E por aí vai.
Quando acordarmos no dia 31, já saberemos quem será o novo presidente do Brasil. Depois da ressaca da guerra de rejeições, vamos encontrar o dilema sobre como tocar a vida e ultrapassar a encruzilhada da transversal do tempo com o sinal vermelho de 2023. Sinal que, aí, curada a ressaca das eleições, estará mais visível. Cairemos na real.
Para completar, os sinais internacionais também são vermelhos. Crise financeira britânica na espreita do mercado financeiro. Chegada do chamado “general inverno” na guerra da Ucrânia, favorecendo a Rússia em detrimento da Ucrânia. Instabilidade na União Européia (inflação e crise de energia) e ameaça à aliança ocidental. E os recentes “rugidos” entre os presidentes Joe Biden e Xi Jinping – os impérios contra-atacam.
A agenda econômica vertebral para o Brasil, germinada na sociedade civil, já tem clareza e já avançou em questões cruciais e estruturais. A reforma tributária está madura para ser votada no Congresso, para aumentar o potencial de crescimento do país. A agenda da sustentabilidade, com centralidade transversal nas políticas públicas, é uma prioridade majoritária, não só pela imagem do país, mas porque ela permeia o universo econômico (critérios dos bancos e dos acordos internacionais).
E por aí vai. Cuidar da modernização do Orçamento Público e da reorganização dos gastos sociais. Pactuar um “waiver fiscal” para 2023, para enfrentar um desequilíbrio fiscal de até R$ 430 bilhões. Equacionar a questão central da transferência de renda. Modernizar a gestão do Estado, com a reforma administrativa e a desconstitucionalização das pautas de política econômica. E encarar a questão da política de reindustrialização, com a superação da baixa produtividade e com reinserção nas cadeias produtivas globais.
Teremos, depois do dia 30, um novo (?) presidente com poder de agenda para enfrentar os desafios? Uma agenda econômica e social progressista alternativa requer uma visão ousada para combinar crescimento inclusivo e sustentável. Com investimentos públicos e privados capazes de criar valor.
Aqui, alguns dos nossos principais economistas já alinhavaram os alicerces dessa agenda, como Pérsio Arida, Armínio Fraga, Edmar Bacha, André Lara Rezende, Pedro Malan e Eduardo Giannetti, por exemplo. (Voltarei ao tema).