Cem dias depois, o governo Lula 3, de uma Frente Ampla ainda em construção, convive com intensa turbulência na agenda política. Um nó do tipo górdio.
Que nos leva a tentar destrinchar a natureza atual da imbricação dialética entre conjuntura e estrutura. O presidente Lula vai precisar de muita astúcia e habilidade para superar paradigmas conjunturais e, principalmente, estruturais.
Já sabemos da fragilidade da articulação política. Já começamos a compreender que, vinte anos depois, o estilo político e a liderança e carisma de Lula não têm hoje o mesmo efeito. Não têm o mesmo poder de persuasão e agregação.
Misturam-se fatores conjunturais e estruturais. Ambiente de espírito de época de polarização. Legitimidade eleitoral estreita do novo presidente. E Congresso Nacional em “modo” parlamentarismo branco. Neste contexto, Lula precisa construir novos caminhos e atalhos para exercer a liderança política do país.
Isto é, para ter capacidade de agregar e articular interesses e garantir a governabilidade. A instalação do “Conselhão”, nesta semana, é mais um desses caminhos e atalhos, para multiplicar canais de mediação de interesses.
Ao mesmo tempo, no plano mais estrutural, está em construção a sintonia fina entre política interna e política externa. A sintonia é que vai poder permitir ao Brasil tirar proveito das novas oportunidades abertas com as mudanças na geopolítica global.
A diplomacia presidencial precisa usar a força do Brasil como potência climática e celeiro do mundo. Produzindo commodities agrícolas e minérios, inclusive semicondutores, o Brasil poderá também produzir fármacos e eletrônicos, inserindo-se nas cadeias globais de valor, como já mostrou Luiz Carlos Azedo.
A questão central é a de que o contrato social da Constituição de 1988 precisa ser restaurado, e não apenas retomado. Várias agendas começaram a ser retomadas (bolsa família, indígenas e mulheres, por exemplo).
Mas é preciso ir além. O desenho de uma frente ampla tem essa finalidade: ir além. Significa semear e articular um novo acordo nacional, na linha proposta há alguns dias por José Dirceu. Acordo que começa entre o governo, o Congresso e os empresários. E que leva a um novo pacto de poder.
O contrato social requer consentimento da maioria e renegociação periódica, na medida em que as circunstâncias mudam. É o nosso caso, no Brasil: negociar para reconstruir.
Mudaram-se as circunstâncias. As novas tecnologias digitais. O novo papel das mulheres. O envelhecimento da população. Os efeitos das mudanças climáticas. Tudo junto e misturado, tensionando antigos paradigmas econômicos e sociais.
Muitos desafios. A ascensão do populismo. A reação contra a globalização e a tecnologia. As consequências econômicas da crise de 2008. As sequelas da pandemia nas pessoas e no sistema de saúde. As guerras culturais em torno do papel das mulheres na sociedade. O racismo e os protestos da juventude contra as mudanças climáticas. São os termômetros de que um novo contrato social é necessário.
A globalização, o avanço do capitalismo monopolista, as mudanças demográficas, as inovações tecnológicas e a exploração do meio ambiente trouxeram um grande progresso material.
Mas nosso contrato social falhou ao administrar as consequências. Portanto, “é preciso criar nova arquitetura de oportunidade para todos (...) para quebrar o ciclo negativo da política impulsionada pela decepção e pela raiva”, adverte Minouche Shafik.
Chegou a hora. Um novo acordo nacional. Pressupostos conjunturais: (1) ajustar a dialética lulismo-petismo & frente ampla; (2) superar dogmas, em benefício do benefício da dúvida; e (3) retomar, em 2024, as reformas políticas.