A observação das cacofonias das pré-campanhas presidenciais no Brasil nos leva a torcer para chegar logo o momento político em que as candidaturas serão assumidas. Quando a hora chegar, vamos torcer para que os senhores candidatos parem de costear o alambrado e comecem a debater a miríade de problemas que se avolumam no país.
Esses problemas tendem a ser ampliados pelo próprio pacote de bondades do
governo federal, acionado para turbinar a campanha do
presidente Bolsonaro. O pacote aprofunda as armadilhas fiscais; estica a malaise econômica; reforça a recorrência da instabilidade política; e reconvoca o fantasma da anomia social. Heranças que ficarão para ele mesmo, ou para quem assumir em 2023.
Tudo somado, está se desenhando um cenário de tempestade perfeita em 2023. Apesar de várias consultorias de renome, que atendem o mercado financeiro e empresarial do eixo Leblon-Faria Lima, apontarem para um cenário de ganhos colaterais do
Brasil e da América Latina com os efeitos da
guerra na Ucrânia e da desaceleração do crescimento chinês.
Tais ganhos adviriam, dentre outros fatores, do aumento dos preços das commodities e do redesenho geopolítico das cadeias produtivas mundiais. Mas, no caso brasileiro, eles não são suficientes, no horizonte de curto prazo, para conter ou contrabalançar a nossa anunciada tempestade perfeita.
O nosso inventário do momento não tem efeitos apenas conjunturais. Ele já consolidou efeitos estruturais negativos e regressivos. Vamos enumerar apenas os temas mais centrais. Para começar, a economia brasileira anda a passos de tartaruga desde 2012, pelo menos, com crescimento médio próximo de zero. Outra década perdida. O FMI projeta um crescimento em torno de 0,8% em 2022 e de 1,4% em 2023 para o Brasil. Reverte a tempestade?
Colocando tudo no bico da pena, Claudio Adilson Gonçalez calcula que o nosso potencial de crescimento declinou para patamar em torno de 1% a 2%. É muito pouco para um país ainda pobre e desigual. Ele mediu nosso PIB per capita pelo critério de paridade de compra e chegou a US$ 14 mil. Ocupamos a 100ª posição no ranking do Banco Mundial.
Para completar, a
taxa de desemprego tem sido recorrentemente alta - e a taxa de desocupação também. Piorou, ainda, a qualidade da mão de obra. Com a
pandemia, e com as barbeiragens dos vários ministros da educação do governo Bolsonaro, a educação também piorou. O que nos leva a um círculo vicioso, registrado por Gonçalez: baixa produtividade, elevado desemprego, pobreza, desigualdade e virtual estagnação da renda per capita. Tudo leva ao encolhimento do mercado de consumo. Capitalismo sem mercado?
O país assiste à reversão contínua dos ganhos sociais e econômicos do período que compreendeu os governos Itamar Franco, FHC e Lula. Desde então, principalmente a partir de 2012 e 2013, voltamos a andar para os lados ou de marcha ré. Com um salto recente em pobreza, desemprego e desigualdade: o Índice de Gini saltou para 0,64 no 2º. trimestre de 2021, segundo a FGV-Social.
E, agora, com mais fragilidades e exposições no campo fiscal. O
teto de gastos virou conversa para boi dormir, como diziam nossos pais. Um ilusionismo no qual nem o eixo Leblon-Faria Lima acredita mais.
Para completar, o festival de emendas parlamentares paroquiais e as disputas pelo controle oligárquico do fundo partidário e do fundo eleitoral mostram que o paradoxo constitucional do nosso presidencialismo-parlamentarista está desconstruindo o nosso sistema político a partir dos seus próprios vírus.
Nós nos equilibramos cada vez mais na fronteira da ingovernabilidade e da crise de legitimidade. A caminho de uma democracia cada vez mais iliberal e extrativista. Vamos reverter a tempestade em 2023?