"Wandinha", da Netflix, tem filha adolescente da Família Addams como protagonistaCrédito: Netflix/Divulgação
Não sei vocês, mas eu costumo simpatizar de imediato com personagens desacertados, desajustados, desencaixados como Wandinha Addams e Pinóquio.
Gosto do espírito torto que nos faz recuar à primeira vista, mas que no fundo esconde falta de traquejo, um bom e velho trauma, uma enorme ausência de alguma coisa. Me sensibilizo com a falta de jeito que questiona padrões e preconceitos. Estimo as esquisitices dos que têm bom coração.
Wandinha Addams é autossuficiente, turrona e sarcástica, dona de um gosto macabro, de hábitos pouco ortodoxos e de uma inabalável tendência à reclusão. Delicadeza e altruísmo não são o seu forte.
Na série da TV, ela acaba expulsa do colégio e transferida para a Academia Nunca Mais, uma escola de crianças superdotadas ou com poderes mágicos nas proximidades de uma cidadezinha conservadora no meio do nada. Wandinha tem poderes sobrenaturais e vai investigar uma série de assassinatos no local.
O cenário da nova versão de Pinóquio é igualmente antiquado e ainda mais assustador: a Itália durante a ascensão do fascismo. Confuso por ser tão diferente das outras crianças, o boneco de madeira cujo nariz cresce quando ele mente foge de casa para encontrar seu lugar no mundo.
Cena de PinóquioCrédito: Netflix
Na fábula recriada por Guillermo del Toro, Pinóquio, um boneco temperamental e impulsivo, se vê obrigado a participar de um treinamento de guerra e a trabalhar como atração no circo de um sujeito desalmado.
A jornada dos dois gira, de algum modo, em torno da desobediência como forma de libertação e autoafirmação.
A dança de Wandinha no baile da escola, no episódio 4, é uma ode à imperfeição, uma celebração da esquisitice, uma homenagem à coragem de ser exatamente o que se é, a despeito dos padrões que o mundo impõe.
O número de marionetes criado por Pinóquio para receber o ditador Benito Mussolini também tem um quê da ousadia de se dizer o que precisa ser dito.
Tanto Wandinha quanto Pinóquio, no entanto, têm a ordem à espreita. Os limites e a autoridade representados pela diretora da Academia Nunca Mais, pelo xerife ou pelo obtuso oficial de alto patente do regime fascista, por exemplo, são os antagonistas da exaltação à diferença promovida pelos dois personagens.
Mas há também afetos, encontros e redenções, e são eles que contam, no final das contas. Wandinha e Pinóquio guardam o charme das pequenas transgressões, o encanto típico de quem leva a vida com um misto de rebeldia e originalidade.
Ana Laura Nahas
É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura