Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Crônica

Sobre o privilégio que é ver a história ser feita diante de nós

Digo dos reencontros como o de quinta à noite ou das tardes em que temos registrado, em áudio, vídeo e afetos, as crônicas de Carmélia M. de Souza na voz dos que conviveram de perto com seus 84 quilos de sinceridade, erros, sonhos e poesia

Publicado em 14 de Dezembro de 2024 às 23:00

Públicado em 

14 dez 2024 às 23:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas Ana Laura Nahas
Andei pensando no privilégio que é ver a história ser feita diante dos nossos olhos. Nem digo a história grandona, como o fim de uma guerra ou a queda de um ditador, um golpe de Estado ou uma vitória maiúscula da democracia, mas os momentos pequenos que, um dia, estarão nas crônicas e poemas, na mesa de bar, num gole sozinho de vinho, nas memórias que contam os que chegaram antes de nós.
Digo, por exemplo, daquela noite em que um artista que há anos não aparecia em público chegou cedo para falar do último trabalho de outro, refletindo diante da plateia a respeito da criação de uma obra na presença do próprio criador. As preocupações esperavam do lado de fora, porque era precioso e preciso ouvir, parar um pouco pra pensar na vida e seu oposto, nas ausências e felizmente no que ainda havia.
Digo também do momento em que dois dos nossos maiores escritores embalavam uma prosa prosaica, somando visões e generosidades sobre um amigo em comum. Pela imagem deles, alheios ao resto, passava um pedaço enorme da literatura recente produzida por estas bandas, um recorte potente do que temos de melhor. Um encontro ele mesmo histórico, a julgar pelo critério das miudezas que importam aos cronistas.
Digo do dia em que estivemos junto de alguém, sem saber que era a última vez.
Digo dos reencontros como o de quinta à noite ou das tardes em que temos registrado, em áudio, vídeo e afetos, as crônicas de Carmélia M. de Souza na voz dos que conviveram de perto com seus 84 quilos de sinceridade, erros, sonhos e poesia, displicente no vestir, bruxa e irremediavelmente distraída. Ouvir a entonação, as pausas, os trechos que embargam a voz, as vírgulas que transportam dali… não deixa de ser a história feita diante dos nossos olhos, impulsionando a seguir um pouco mais.
Carmélia Maria de Souza - Personalidades Negras do ES
Carmélia Maria de Souza - Personalidades Negras do ES Crédito: Arte/Geraldo Neto
Carmélia, afinal, - contei faz pouco - advogava a favor da esperança que tempos difíceis exigem de nós e sabia que as coisas da vida seguem ficando mais belas enquanto ficam mais simples. Com ela, aprendi um bocado sobre a cidade, os ventos e os amores daquele tempo. Como ela, perdi simpatias, sombrinhas e oportunidades. Da mesma forma, também acho que o tempo tem sido curto além da conta. Igualmente tendo a concordar com sua resposta à pergunta daquele texto, três anos antes de sua morte:
- Quando? Por quê? Como?
- Ontem, porque sim, por amor.
É disso que falo quando falo do privilégio que é ver a história ser feita diante dos nossos olhos. Não a história grandona, como o fim de uma guerra ou a queda de um ditador, um golpe de Estado ou uma vitória maiúscula da democracia, mas os momentos pequenos que, um dia, estarão nas crônicas e poemas, na mesa de bar, num gole sozinho de vinho, nas memórias que contam os que chegaram antes de nós.

Ana Laura Nahas

Ana Laura Nahas Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Livia Dorsch, Guilherme, Nicolas e André Chieppe
André Chieppe e Lívia Dorsch celebram o 1º aniversário do filho Guilherme em Vitória
No alto do relógio-termômetro tem um colibri, símbolo do município
A mais nova atração turística de Santa Teresa já está inaugurada
Imagem de destaque
Horóscopo do dia: previsão para os 12 signos em 05/09/2026

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados