Andei pensando no privilégio que é ver a história ser feita diante dos nossos olhos. Nem digo a história grandona, como o fim de uma guerra ou a queda de um ditador, um golpe de Estado ou uma vitória maiúscula da democracia, mas os momentos pequenos que, um dia, estarão nas crônicas e poemas, na mesa de bar, num gole sozinho de vinho, nas memórias que contam os que chegaram antes de nós.
Digo, por exemplo, daquela noite em que um artista que há anos não aparecia em público chegou cedo para falar do último trabalho de outro, refletindo diante da plateia a respeito da criação de uma obra na presença do próprio criador. As preocupações esperavam do lado de fora, porque era precioso e preciso ouvir, parar um pouco pra pensar na vida e seu oposto, nas ausências e felizmente no que ainda havia.
Digo também do momento em que dois dos nossos maiores escritores embalavam uma prosa prosaica, somando visões e generosidades sobre um amigo em comum. Pela imagem deles, alheios ao resto, passava um pedaço enorme da literatura recente produzida por estas bandas, um recorte potente do que temos de melhor. Um encontro ele mesmo histórico, a julgar pelo critério das miudezas que importam aos cronistas.
Digo do dia em que estivemos junto de alguém, sem saber que era a última vez.
Digo dos reencontros como o de quinta à noite ou das tardes em que temos registrado, em áudio, vídeo e afetos, as crônicas de Carmélia M. de Souza na voz dos que conviveram de perto com seus 84 quilos de sinceridade, erros, sonhos e poesia, displicente no vestir, bruxa e irremediavelmente distraída. Ouvir a entonação, as pausas, os trechos que embargam a voz, as vírgulas que transportam dali… não deixa de ser a história feita diante dos nossos olhos, impulsionando a seguir um pouco mais.
Carmélia, afinal, - contei faz pouco - advogava a favor da esperança que tempos difíceis exigem de nós e sabia que as coisas da vida seguem ficando mais belas enquanto ficam mais simples. Com ela, aprendi um bocado sobre a cidade, os ventos e os amores daquele tempo. Como ela, perdi simpatias, sombrinhas e oportunidades. Da mesma forma, também acho que o tempo tem sido curto além da conta. Igualmente tendo a concordar com sua resposta à pergunta daquele texto, três anos antes de sua morte:
- Quando? Por quê? Como?
- Ontem, porque sim, por amor.
É disso que falo quando falo do privilégio que é ver a história ser feita diante dos nossos olhos. Não a história grandona, como o fim de uma guerra ou a queda de um ditador, um golpe de Estado ou uma vitória maiúscula da democracia, mas os momentos pequenos que, um dia, estarão nas crônicas e poemas, na mesa de bar, num gole sozinho de vinho, nas memórias que contam os que chegaram antes de nós.