Não sei vocês, mas aquela cena me ocupou inteira. A sequência dos acontecimentos me assustou igual. Primeiro um corpo do lado do outro, numa fila de horrores criada por quem devia proteger, direcionar, julgar e punir quando for o caso, conforme a lei. Depois o veredito do mesmo modo sem julgamento: bandido bom é bandido morto.
Como aplaudir a ideia de que uma operação que matou pelo menos 121 pessoas foi um sucesso? Do alto de que certeza podemos definir individualmente que uma, duas, cem pessoas são tão culpadas que merecem morrer? Onde deixamos a regra que determina o direito a um julgamento justo, ao contraditório, à ampla defesa?
As perguntas insistem, agarram, engasgam, diante das notícias da operação policial com o maior número de mortos da história do Brasil, nos últimos dias de um outubro frenético e chuvoso, no Rio de Janeiro.
Quem somos nós, afinal, para transformar impressão, opinião, palpite, conceito prévio, crença em sentença? Com quanto de razão a gente se acha para determinar o destino alheio? Se a paz é o objetivo, por que celebrar a guerra com um violento espetáculo como o que assistimos nos últimos dias? Quanto disso tudo, real e oficialmente, impactou no combate ao gravíssimo problema do tráfico de drogas?
A falta de respostas faz companhia às histórias que ultrapassam as estatísticas. Elas têm nome e sobrenome: um filho sem pai, uma mãe sem filho, o vizinho que você achava que tinha jeito para o futuro, o marido que saiu para trabalhar e voltou morto, o parente que teve o rosto desfigurado e a irmã queria que lembrassem dele sorrindo…
Cada corpo vira um parágrafo interrompido no meio da frase, suspenso antes de ser período, texto, página, livro. Penso em quantos deles são jovens e são pretos, no quanto isso não é, nem um pouco, coincidência. Penso no fato de que podia ser um conhecido, um parente, qualquer um, à mercê de uma condenação final sem julgamento prévio. Penso no privilégio que é poder se defender, se for o caso.
Dói ouvir o aplauso de tanta gente à tamanha violência.