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É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

Pandemia nos ensinou a seguir e ao mesmo tempo parar

Os projetos que cancelamos, as festas a que não fomos, o brinde que não fizemos, as viagens que ficaram para depois… Guardados na caixinha de guardar afetos, eles assistem ao domínio da espera

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 11/07/2021 às 02h00
Menino olhando pela janela usando máscara
Menino olhando pela janela usando máscara: na pandemia os dias se confundem pela repetição. Crédito: Freepik

Minha avó nasceu em 1922, pouco mais de três anos depois do fim da Primeira Guerra. Minha mãe, em 1948, quando o mundo ainda se recuperava da Segunda, oficialmente encerrada em setembro de 1945. Minha geração não teve propriamente uma guerra global, mas a pandemia tem sido bem-sucedida em deixar marcas trágicas e profundas no mundo de hoje e no modo como dialogamos com ele.

Guerras revelam o pior da humanidade e matam muita gente, destroem economias, arruinam esperanças. Depois delas, o trabalho de reconstrução, o vazio da perda, as feridas e cicatrizes ocupam a vida de quem fica de um jeito ao mesmo tempo coletivo e particular, metafísico e real, doído, mas cheio de expectativas.

pandemia opera numa sintonia parecida. Perdemos muito, aprendemos bem pouco. A economia se ressente, os corações idem. Num dia as coisas parecem estar retomando o rumo. No outro é exatamente o oposto.

Verdade que há esperança, traduzida especialmente pelo retrato diário dos avanços da vacinação - e, não custa repetir, que pelo menos a esperança não falte já tem sido de grande valia. Verdade que existe em nós, mesmo que adormecidos, o gosto e a graça do carnaval, do futebol, do samba, aquela vocação para a diversão típica do povo brasileiro.

Acontece que os dias se confundem pela repetição, o cansaço mental diante das más notícias nos desnorteia. Saudamos o passado resumido nos dias em que podíamos estar juntos e misturados.

Os projetos que cancelamos, as festas a que não fomos, o brinde que não fizemos, as viagens que ficaram para depois… Guardados na caixinha de guardar afetos, eles assistem ao domínio da espera, com doses maiores ou menores de paciência.

Ansiamos pelo futuro como quem ama fazer aniversário. Sonhamos em voltar ao cinema e às resenhas de depois, ao rir baixinho para não atrapalhar a concentração do espectador ao lado, ao procurar a cadeira mais longe do ar-condicionado, ao respirar o leve e poético cheiro de mofo da sala de projeção.

Imaginamos a volta triunfal dos encontros, das madrugadas, das conversas de bar que alimentam a imaginação e o riso. Contamos os dias para a chegada do carnaval, mesmo sabendo que pode ser que o carnaval não chegue.

Por outro lado, desconfiamos do amanhã, embora existam dias em que os amanhãs são tudo o que temos. A pandemia nos ensinou, a despeito de toda a estranheza que isso significa, a seguir e ao mesmo tempo estar parado.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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