Por onde você começa quando não sabe por onde começar? Um texto como este, uma mala de viagem se faz frio, a faxina de uma casa tomada pela bagunça, as louças com vida própria à espera de um milagre… A partir de que frase, com que roupa, na cozinha ou no quarto, pelos copos ou garfos, de-onde-e-por-que você parte em dias de paralisia, desânimo, falta de propósito, ausência de razão, peso no ombro?
Como dar o primeiro passo de um projeto que precisa sair do papel quando as coisas estão difíceis? Recomeçar também tem seus desafios, voltar a acreditar numa ideia, exercitar o corpo depois de uma pausa longuíssima, retomar a confiança perdida depois de uma decepção daquelas, tentar de novo apesar das expectativas desfeitas.
Grandes realizações exigem atenção aos pequenos começos, dizia o sábio do espírito leve como as canções em tom maior; o amor que basta em si mesmo, imenso e manso; e a ideia de que não se deve julgar cada dia pelas colheitas, mas pelas sementes.
Mas e os pequenos feitos, a rotina prosaica que se revela enquanto nos ocupamos de planejamentos, projetos, desejos e sonhos? De que são feitos os começos de fatos aparentemente desimportantes? Não são elas que, no final das contas, no frigir dos ovos, configuram o grosso da existência e dão força para seguir, apesar do que pesa?
Se é verdade que a vida começa todos os dias, são as coisas miúdas que definem o que somos até quando a gente não faz ideia da jornada ou da chegada, mas sabe que precisa caminhar. São elas que ajudam a seguir, mesmo em dias difíceis - comida do gato, canção na vitrola, lixo no lugar certo, expediente cumprido, um abraço que energiza, um passo depois do outro, dentro do possível, à espera de dias melhores.
Coisas miúdas nos ajudam a seguir, com fé no que virá, em Deus e nas deusas, numa noite de sono, no tempo, na Física, na música ou na opção de rir o quanto possível apesar das ausências, dançar apesar das perdas, investir na leveza e no movimento. Coisas miúdas nos ajudam a seguir, até que o vazio se ocupe e o coração também.