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Crônica

Coisas miúdas nos ajudam a seguir, até que o vazio se ocupe e o coração também

Recomeçar também tem seus desafios, voltar a acreditar numa ideia, exercitar o corpo depois de uma pausa longuíssima, tentar de novo apesar das expectativas desfeitas

Publicado em 02 de Junho de 2024 às 02:00

Públicado em 

02 jun 2024 às 02:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas Ana Laura Nahas
Por onde você começa quando não sabe por onde começar? Um texto como este, uma mala de viagem se faz frio, a faxina de uma casa tomada pela bagunça, as louças com vida própria à espera de um milagre… A partir de que frase, com que roupa, na cozinha ou no quarto, pelos copos ou garfos, de-onde-e-por-que você parte em dias de paralisia, desânimo, falta de propósito, ausência de razão, peso no ombro?
Como dar o primeiro passo de um projeto que precisa sair do papel quando as coisas estão difíceis? Recomeçar também tem seus desafios, voltar a acreditar numa ideia, exercitar o corpo depois de uma pausa longuíssima, retomar a confiança perdida depois de uma decepção daquelas, tentar de novo apesar das expectativas desfeitas.
Grandes realizações exigem atenção aos pequenos começos, dizia o sábio do espírito leve como as canções em tom maior; o amor que basta em si mesmo, imenso e manso; e a ideia de que não se deve julgar cada dia pelas colheitas, mas pelas sementes.
Mas e os pequenos feitos, a rotina prosaica que se revela enquanto nos ocupamos de planejamentos, projetos, desejos e sonhos? De que são feitos os começos de fatos aparentemente desimportantes? Não são elas que, no final das contas, no frigir dos ovos, configuram o grosso da existência e dão força para seguir, apesar do que pesa?
Se é verdade que a vida começa todos os dias, são as coisas miúdas que definem o que somos até quando a gente não faz ideia da jornada ou da chegada, mas sabe que precisa caminhar. São elas que ajudam a seguir, mesmo em dias difíceis - comida do gato, canção na vitrola, lixo no lugar certo, expediente cumprido, um abraço que energiza, um passo depois do outro, dentro do possível, à espera de dias melhores.
Coisas miúdas nos ajudam a seguir, com fé no que virá, em Deus e nas deusas, numa noite de sono, no tempo, na Física, na música ou na opção de rir o quanto possível apesar das ausências, dançar apesar das perdas, investir na leveza e no movimento. Coisas miúdas nos ajudam a seguir, até que o vazio se ocupe e o coração também.

Ana Laura Nahas

Ana Laura Nahas Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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